EDUCAÇÃO FAMILIAR E PRÁTICA PESQUEIRA DE ADOLESCENTES: ANÁLISE SOCIOLÓGICA NA COMUNIDADE DE CAWANGO, BENGUELA, ANGOLA
FAMILY EDUCATION AND ADOLESCENTS’ FISHING PRACTICES: A SOCIOLOGICAL ANALYSIS IN THE CAWANGO COMMUNITY, BENGUELA, ANGOLA
Valerio Canhala-Semente1
E-mail: valeriosemente@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-8773-1710
Alenni Ramona Aguilera-Grave de Peralta2
E-mail: alenniaguilera@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3535-2079
Narciso Rodrigues Cassoma-Sacata2
E-mail: narcisosacata@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0971-6529
1 Instituto Superior Politécnico do Bié, Angola.
2 Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela, Angola.
Submissão: 20/06/2026
Aceitação: 05/08/2026
Publicação: 01/09/2026
RESUMO
A pesca artesanal representa uma prática cultural e económica transmitida de geração em geração, na qual a educação familiar desempenha um papel fundamental na formação dos adolescentes envolvidos nessa actividade. Compreender de que forma os valores e conhecimentos transmitidos no seio familiar impactam a formação profissional dos adolescentes na actividade piscatória é essencial. O estudo abordou a influência familiar na actividade piscatória dos adolescentes de Cawango, município de Benguela, Angola. O objectivo do artigo foi analisar a influência da educação recebida no ambiente familiar sobre a participação e o desempenho dos adolescentes na pesca artesanal. A investigação desenvolveu-se a partir de uma abordagem mista, com âmbito descritivo-explicativo; foram utilizados métodos do nível teórico (histórico-lógico, análise-síntese, indução-dedição) e do nível empírico (observação do contexto, inquéritos e entrevistas). Os resultados revelaram que os responsáveis pela educação influenciam directamente os seus filhos adolescentes, como consequência da estrutura económica das suas famílias. Como conclusão, enfatiza-se que essa influência familiar é imperativa e não resultado das decisões dos próprios adolescentes.
Palavras-chave:
Actividade piscatória, adolescência, educação familiar, influência familiar, transmissão de saberes.
ABSTRACT
Artisanal fishing represents a cultural and economic practice passed down from generation to generation, where family education plays a fundamental role in the development of adolescents involved in this activity. Understanding how the values and knowledge transmitted within the family environment impact adolescents' professional development in the fishing industry is crucial. The study addressed the influence of family life on the fishing activity of adolescents in Cawango, in the municipality of Benguela, Angola. The objective of this article was to analyze the influence of family education on adolescents' participation and performance in artisanal fishing. The study was conducted using a mixed approach, with a descriptive-explanatory scope. Methods were employed: theoretical methods (historical-logical, analysis-synthesis, induction-deduction), and empirical methods (observation of the context, surveys and interviews). The results revealed that those responsible for education directly influence their adolescent children, as a result of their families' economic structure. The conclusions emphasize that this family influence is imperative and not a result of the adolescents' own decisions.
Keywords:
Family education, adolescence, family influence, fishing activity, transmission of knowledge.
INTRODUÇÃO
A educação familiar desempenha um papel fundamental na transmissão de saberes tradicionais, especialmente em actividades culturais e produtivas como a pesca praticada por adolescentes em comunidades costeiras (Quijije & Tigrero, 2025). A educação familiar não oferece uma compreensão completa dos factores que a condicionam, sendo necessário conhecer o contexto para um melhor enquadramento analítico Rojas-Valladares & Pire-Rojas, 2024). A existência de actividades de pesca por parte dos progenitores e a procura de sustento podem interferir na forma como a família educa os seus filhos (Gutiérrez, 2024). O contexto da comunidade de Cawango é marcado pela prática da pesca; a realização desta actividade envolve, em certa medida, todos os membros da família. De facto, não é apenas uma actividade comunitária: neste espaço, trata-se de uma prática profissional que faz parte da cultura familiar, transmitida de geração em geração.
Nesse sentido, a partir da utilização de métodos empíricos, como a observação na comunidade de Cawango, evidencia se a preocupação dos responsáveis pela educação e das autoridades locais relativamente ao envolvimento dos adolescentes nas actividades de pesca. Esta investigação não se centra na análise das causas da actividade piscatória, mas sim em compreender de que forma a educação familiar influencia a prática da pesca, com ênfase no impacto dessa educação sobre a actividade piscatória dos adolescentes de Cawango.
A educação familiar é analisada sob diferentes perspectivas por pedagogos, psicólogos, sociólogos, sociedade civil e actores políticos (Martínez, 2023). Acrescenta-se que a experiência familiar antecede todas as formas de socialização; pode dizer-se que é o primeiro cenário em que a criança aprende a ser sujeito da vida social (Vergara & Aguirre, 2022). Neste contexto, examina-se a influência que a educação familiar exerce sobre a actividade piscatória, tanto na comunidade piscatória como na sociedade em geral.
Para muitos indivíduos, a actividade piscatória constitui uma profissão que, através deste estudo, permite analisar a sua organização e as experiências familiares ligadas a essa prática (Sáenz, 2025). Assim surge o interesse em compreender a relação entre educação familiar e actividade piscatória, o que pode oferecer um entendimento aprofundado sobre a organização dos grupos sociais e a estruturação da sua vida quotidiana.
A relevância social do estudo reside na sua capacidade de identificar como a educação familiar molda as práticas produtivas em comunidades costeiras como Cawango. Em contextos onde a pesca artesanal é pilar económico e cultural, compreender essa influência possibilita tornar visível o papel dos adolescentes na cadeia produtiva familiar. Desse modo, promove-se uma reflexão colectiva sobre o equilíbrio entre actividade piscatória e educação familiar.
No contexto de Benguela, a pesca familiar não só garante o sustento, como transmite valores de resiliência e cooperação intergeracional. O envolvimento dos adolescentes nessas actividades revela tensões entre a aprendizagem prática e as oportunidades de educação formal. Ao estudar essa dinâmica, cria-se consciência social sobre riscos como a desistência escolar e a exposição laboral precoce.
A relevância social estende-se ao empoderamento das novas gerações em Cawango, onde a pesca define identidades colectivas. A educação familiar, enquanto primeiro agente de socialização, pode transformar práticas rudimentares em ofícios profissionalizados (Galarza, 2023). Isso incentiva os jovens a combinar saberes ancestrais com formação técnica, elevando o potencial socioeconómico local. Em última instância, abrem-se caminhos para a diversificação económica além da mera subsistência.
Numa perspectiva de equidade social, o tema aborda as desigualdades em comunidades piscatórias marginalizadas. As famílias de Cawango enfrentam pressões económicas que priorizam a mão-de-obra adolescente em detrimento da escolarização. Analisar a influência educativa familiar permite desenhar intervenções que mitiguem vulnerabilidades, como a exploração infantil disfarçada de tradição. Assim, promove-se o avanço para modelos inclusivos de desenvolvimento que respeitem direitos humanos e culturais.
Em termos de sustentabilidade social, compreender essa relação família-pesca é chave para preservar os recursos costeiros. Os adolescentes, enquanto futuros guardiões, recebem pela educação familiar padrões de exploração que afectam a biodiversidade marinha. A investigação orienta para práticas responsáveis, integrando conhecimento tradicional com ciência moderna.
A relevância social transcende Cawango ao oferecer lições para outras vilas piscatórias angoleiras e latino-americanas. A educação familiar surge como eixo para romper ciclos de pobreza rural-costeira. Ao documentar impactos nos adolescentes, evidencia-se a necessidade de programas de formação dupla: formação profissional em pesca e educação formal. Assim, catalisa-se um desenvolvimento socioeconómico mais inclusivo e equitativo.
Este estudo também aborda dinâmicas de género na pesca familiar, onde adolescentes masculinos e femininos assumem papéis diferenciados por herança educativa. Compreender essas influências permite intervenções que promovam igualdade de oportunidades. A comunidade ganha instrumentos para redefinir tradições excludentes.
A partir deste enquadramento formula-se o problema de investigação: Como influencia o contexto da educação familiar na participação e desempenho dos adolescentes na actividade piscatória artesanal da Vila Pescadora de Cawango? O objectivo do artigo é analisar a influência da educação recebida no ambiente familiar sobre a participação e o desempenho dos adolescentes na actividade piscatória artesanal.
O processo de educação e socialização do adolescente ocorre, primeiramente, na família e, em muitos casos, num ambiente de educação informal e, mais tarde, noutras instituições como as escolas, grupos de pares, entre outras. Assim, procuramos discutir o conceito de educação de forma geral, a perspectiva histórica, os tipos de educação e, por fim, a educação familiar, como se desenvolve e de que maneira interfere na vida dos adolescentes.
De forma geral, a educação pode entender-se como um processo contínuo de construção do conhecimento, o que implica dizer que, à medida que as sociedades crescem, a vida torna-se mais complexa; aumentam os avanços tecnológicos e científicos e a simples convivência torna-se insuficiente para garantir a transmissão e preservação do conhecimento acumulado (Grados Espinoza, 2023).
Percebe-se, assim, que a educação é um fenómeno sociocultural que ocorre em vários espaços; não existe uma única instituição responsável por ela. Embora comece na família, há várias outras instâncias sociais que concorrem com a família na educação dos seus membros. Ou seja, cada um dos aspectos mencionados (a família, os meios de comunicação e os grupos de pares) representa, por si só, uma forma e um tipo de educação.
A educação familiar em contextos de pesca artesanal contempla múltiplas dimensões teóricas que explicam a transmissão e a aprendizagem desta actividade entre adolescentes. Destacam-se teorias ecológicas do desenvolvimento, que consideram a interação dinâmica entre o jovem e o seu ambiente familiar e social, enfatizando a importância da família como agente primário de socialização e formação de competências produtivas (Corral, 2024). Igualmente, modelos socioculturais sublinham a pesca não só como actividade económica, mas como prática cultural e comunitária aprendida através da observação, da participação conjunta e da socialização de papéis entre gerações (Castro et al., 2024).
A educação nesses contextos implica um processo relacional em que os pais actuam como modelos e mediadores directos, promovendo valores, conhecimentos técnicos e o sentimento de identidade ligados à actividade piscatória. Estas abordagens oferecem uma visão integral que considera a família como espaço fundamental para o desenvolvimento de competências, identidade e continuidade cultural dos jovens vinculados à pesca artesanal.
A reprodução sociocultural refere-se à tradição como algo mais do que uma forma particular de experiência temporal; representa a continuidade do vivido no quotidiano. Ou seja, a reprodução social é a vivência diária e a sua permanência no tempo e no espaço. Nas sociedades modernas, os indivíduos fazem história; são eles os responsáveis pela direcção da sociedade (Giddens, 1989 citado por Porto, 2011).
Ao considerar a actividade piscatória como sustento das famílias de classes populares, constata-se que a aprendizagem das crianças ocorre na quotidianidade dos progenitores. As condições de sucessão familiar determinam a reprodução geracional, isto é, a manutenção das gerações mais jovens na actividade desenvolvida na propriedade (Porto, 2011).
A teoria da sucessão geracional é relativamente recente e procura analisar como os jovens reproduzem as profissões dos seus progenitores através da educação familiar. A base desta teoria é que as práticas da pesca artesanal se caracterizam pela transmissão de conhecimento entre gerações, sendo as gerações mais velhas as responsáveis por transmitir às mais novas (Costa Delgado, 2021).
Nesta perspectiva, entende-se por sucessão geracional a criação de uma nova geração de indivíduos que permanecem na actividade de produção de alimentos e que assumem a direcção da actividade económica praticada pela família. Os filhos são os potenciais sucessores, e a sua permanência ou não na actividade dependerá de condições objectivas, internas e externas ao contexto em que vivem (Almeida da Conceição, 2020).
Assim, convém reforçar que a sucessão aqui tratada não se refere apenas à transferência da actividade entre membros da família; é também um processo de gestão do empreendimento, da transferência de conhecimento técnico adquirido ao longo dos anos e que abrange um longo período de tempo. A transferência referida ocorre, de forma geral, do pai para o filho, que assume a gestão da actividade quando o progenitor já não tem condições para a desempenhar. Esse processo decorre de forma gradual, com ensinamentos transmitidos de modo planeado ao sucessor (Almeida da Conceição, 2020).
Por fim, podemos explicar que duas razões levam os pais a incentivar os filhos para a actividade piscatória: a primeira relaciona-se com o facto de as opções de trabalho remunerado serem, nessas classes sociais, limitadas e constituírem os principais atractivos nas comunidades piscatórias; a segunda decorre do facto de que, ainda hoje, o saber se transmite de pai para filho, tornando os progenitores os principais influenciadores dos filhos através dessas práticas quotidianas.
MATERIAIS E MÉTODOS
O estudo desenvolveu-se a partir de uma abordagem mista, integrando métodos quantitativos e qualitativos para uma compreensão integral do fenómeno investigado (Hernández & Mendoza, 2018). Esta abordagem permitiu quantificar os dados recolhidos junto dos adolescentes através de inquéritos aplicados, o que facilitou a criação de uma base de dados fiável. A partir dessa base de dados elaboraram-se gráficos e tabelas que correlacionaram as variáveis educação familiar e actividade piscatória, revelando padrões significativos nas dinâmicas observadas. O alcance descritivo-explicativo procurou conhecer em profundidade a realidade estudada, identificando as suas características principais e os problemas inerentes. Além disso, este desenho teve como propósito descrever com exactidão os factos e fenómenos da realidade determinada, oferecendo uma base empírica sólida para interpretações subsequentes.
A abordagem mista foi seleccionada pela sua capacidade de triangulação de dados, combinando a rigorosidade numérica dos inquéritos com a profundidade interpretativa das entrevistas. Deste modo evitou-se a limitação de métodos puramente quantitativos ou qualitativos, assegurando uma validação cruzada dos resultados. Os inquéritos proporcionaram medidas objectivas, enquanto as entrevistas semi-abertas captaram matizes subjectivos das experiências dos adolescentes. Este método é amplamente recomendado em investigações sociais com populações vulneráveis, como nos contextos piscatórios angolanos.
As técnicas e instrumentos de recolha de dados basearam-se na entrevista do tipo semi-aberta e em inquéritos estruturados, adaptados ao perfil da população-alvo. A técnica principal foi o inquérito, aplicado através de um instrumento de questionário estandardizado, o que garantiu a comparabilidade das respostas e a fiabilidade dos dados quantitativos. As entrevistas semi-abertas permitiram explorar percepções não antecipadas sobre a educação familiar e a pesca. Todos os instrumentos foram pré-testados num piloto com cinco adolescentes para ajustar a redação e a compreensão. Esta combinação assegurou uma recolha exaustiva, minimizando vieses e maximizando a representatividade dos dados obtidos.
O questionário do inquérito incluiu 25 itens fechados com escalas Likert para medir variáveis como envolvimento na pesca e percepções sobre a educação familiar. As entrevistas semi-abertas constaram de 10 perguntas-guia, focadas em narrativas pessoais sobre dinâmicas familiares e actividades piscatórias. Ambos os instrumentos incorporaram uma caracterização sociodemográfica inicial, abrangendo idade, sexo e outros aspectos individuais.
A investigação realizou-se na aldeia piscatória de Cawango, na divisão territorial do Município de Benguela, pertencente à Zona “F”. Este local tem como referência a Penitenciária do Cavaco, o que facilitou a localização precisa durante o trabalho de campo. Segundo dados de finais de 2014, a aldeia conta com aproximadamente 4.602 habitantes, o que define a sua escala comunitária. A escolha deste lugar baseou-se na sua relevância como vila piscatória, onde a pesca é actividade central para os adolescentes. O acesso foi gerido mediante permissões locais, assegurando ética e segurança num contexto costeiro dinâmico.
A população-alvo abrangeu todos os adolescentes com idades compreendidas entre 11 e 17 anos residentes na Vila Piscatória de Cawango, mas que realizam actividades de pesca nas praias do referido bairro. Esta delimitação justificou-se pela necessidade de focar em grupos expostos a riscos psicossociais relacionados com a pesca infantil. Estimou-se um total de cerca de 150 indivíduos nesta faixa etária, com base em censos locais preliminares. A população caracterizou-se pela homogeneidade quanto à residência e actividade laboral informal. Esta abordagem permitiu um foco preciso, alinhado com os objectivos de investigação em saúde mental adolescente.
A amostra constituiu-se de 40 adolescentes que vivem no bairro de Cawango, com idades entre 10 e 17 anos, seleccionados mediante amostragem não probabilística por conveniência e bola de neve. Este tamanho foi calculado considerando um erro amostral de 10% e nível de confiança de 90%, adequado para populações pequenas. Priorizaram-se participantes acessíveis nas praias e nos domicílios durante horários de pesca. A representatividade foi verificada através de estratificação por idade e sexo. Este procedimento equilibrou viabilidade logística com validade estatística num contexto rural.
Foram critérios de inclusão, tanto para a população como para a definição da amostra: idade (entre 10 e 17 anos), residência no bairro de Cawango e o envolvimento na prática da pesca. Estes critérios asseguraram homogeneidade e relevância temática, excluindo variáveis confundidoras. Verificaram-se mediante revisão de documentos locais e observação directa. Todos os seleccionados confirmaram a sua participação voluntária mediante assentimento informado. Esta rigorosidade fortaleceu a consistência da amostra para análises correlacionais.
Ficaram excluídos todos os adolescentes que não residem no bairro de Cawango, aqueles que não realizam actividades de pesca e, por fim, os menores de 10 anos e os maiores de 18 anos. Estas exclusões preveniram vieses geográficos e etários, mantendo o foco no fenómeno específico. Documentaram-se 12 casos excluídos por não residirem localmente e 8 por não praticarem pesca. O processo foi registado num diário de campo para transparência.
A recolha de dados efectuou-se através de uma entrevista estruturada e de um inquérito por questionário, aplicados em sessões individuais de 20–30 minutos por participante. Iniciou-se com a caracterização sociodemográfica, incluindo aspectos como idade e sexo para contextualizar as respostas. O trabalho de campo durou quatro semanas, em horários matutinos para coincidir com as actividades de pesca. Dois investigadores capacitados administraram os instrumentos, com gravação áudio mediante autorização prévia. Garantiu-se o anonimato através de códigos numéricos em todas as respostas.
Tanto a entrevista como o inquérito foram precedidos por uma caracterização sociodemográfica que abrangeu todos os aspectos individuais que facilitam a compreensão do fenómeno nos diferentes estratos sociais, tais como idade e sexo. Esta secção incluiu também o nível educativo e o tempo semanal dedicado à pesca. Os dados sociodemográficos permitiram segmentar a análise por subgrupos, revelando diferenças de género nas percepções familiares. Processaram-se de forma descritiva para tabelas iniciais. Esta base estratificada enriqueceu a interpretação explicativa do estudo.
As transcrições das entrevistas semi-abertas codificaram-se tematicamente através de análise de conteúdo dirigida, identificando categorias como "apoio parental" e "riscos piscatórios". Triangularam-se com observações de campo para maior robustez. A saturação temática atingiu-se após 30 entrevistas. Esta abordagem qualitativa aprofundou as explicações descritivas iniciais.
Forneceu-se informação clara a tutores e participantes, com consentimento e assentimento verbal. Priorizaram-se o bem-estar, evitando questões traumáticas sobre pesca perigosa. Os dados foram armazenados em servidores encriptados. A validade fortaleceu-se através da triangulação e das pré-provas, embora a amostragem não probabilística limite a generalização. A fiabilidade quantitativa assegurou-se com instrumentos estandardizados. Mitigaram-se vieses de desejabilidade social através de uma administração neutra. O contexto de 2014 para os dados populacionais foi actualizado com observações recentes. Estas medidas posicionam os métodos como sólidos para futuras replicações em contextos semelhantes.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados do inquérito aos adolescentes do bairro de Cawango permitem identificar a distribuição dos inquiridos por género: 35 (88%) do sexo masculino e cinco (12%) do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos. Isto indica que a actividade piscatória é predominantemente praticada por homens, sendo a participação das mulheres direcionada, em maior medida, para a comercialização do pescado.
Relativamente à idade dos adolescentes inquiridos: cinco (12%) têm entre 10 e 12 anos; 11 (28%) entre 13 e 15 anos; e 24 (60%) entre 16 e 17 anos. Na figura 1 observa-se que a maior parte dos adolescentes tem 16 anos, o que aponta a essa idade como a fase em que mais se envolvem na actividade piscatória.
Figura 1. Distribuição dos adolescentes por idades.
Relativamente à convivência familiar, 20 adolescentes (50%) vivem com os pais; 12 (30%) com os avós; e oito (20%) responderam que vivem com os tios. A informação revela que a maioria dos adolescentes vive com os pais, o que implica que a principal influência nas actividades de pesca destes adolescentes pode provir dos progenitores, embora também existam outros familiares, como avós e tios, que vivem com alguns adolescentes.
Ao analisar o indicador profissão dos pais, 22 (55%) exercem a profissão de pescador; dez (25%) são comerciantes; um familiar (2%) é polícia; e sete (18%) dos inquiridos referiram que os progenitores exercem outras profissões. Esta leitura demonstra que a profissão de pescador lidera a nossa amostra, permitindo avaliar a influência das profissões parentais nas actividades dos adolescentes. Assim, é possível certificar até que ponto a profissão de pesca dos pais se reflecte nas actividades de pesca dos adolescentes do bairro de Cawango.
Os dados da figura 2 mostram que a principal fonte de rendimento das famílias dos adolescentes está intrinsecamente ligada à profissão dos pais ou tutores do agregado, neste caso, a actividade piscatória. Estes dados levam-nos a inferir que a pesca praticada na zona de Cawango constitui uma actividade de subsistência; por conseguinte, pode existir uma tendência dos progenitores para perpetuar essa profissão.
Figura 2. Principal fonte de ingressos das famílias dos adolescentes.
Dos 40 adolescentes inquiridos, 17 (43%) acompanham sempre os pais na actividade de pesca, 18 (45%) o fazem ocasionalmente e cinco (12%) nunca. Importa referir que é notória a influência da figura paterna, dado que a maioria dos adolescentes inquiridos acompanha o pai sempre ou por vezes na actividade piscatória. Além disso, o acompanhamento dos filhos aos locais de trabalho é uma forma de os envolver nas profissões parentais, constituindo um factor educativo na reprodução das ocupações familiares.
Deste modo, os adolescentes aprendem tanto no local de trabalho dos progenitores como em casa. O local de trabalho é sobretudo um espaço de experiências, onde os adolescentes praticam o aprender fazendo, enquanto em casa ocorre a educação que corrige aspectos que não correram bem no local de trabalho. A educação familiar para as profissões começa em casa e prolonga-se até ao local de trabalho.
De forma geral, a actividade piscatória é, neste contexto, uma profissão geracional, uma vez que, se os avós e outros familiares também educam as crianças nessa prática, é porque os pais também aprenderam com os seus progenitores, e assim sucessivamente. A motivação para a prática da actividade de pesca tem origem na educação familiar e no processo de socialização em que os adolescentes estão inseridos.
A instituição familiar constitui a base fundacional do indivíduo, onde a criança estabelece e interioriza valores morais, culturais e crenças essenciais. Através desta esfera primária forja-se a identidade social do menor desde idades precoces. Educar os filhos implica transmitir intencionalmente e de forma contínua os princípios em que a família acredita. Esta dinâmica posiciona a família como agente primordial de socialização antes de qualquer influência externa. Em comunidades como Cawango, essa transmissão adquire relevância prática ao vincular-se a actividades produtivas quotidianas.
A educação familiar define-se como um processo deliberado pelo qual as gerações adultas contribuem para o desenvolvimento pessoal e a socialização dos mais jovens (Callado, 2001). Este processo não é espontâneo, sendo estruturado por padrões herdados e adaptados ao contexto local. Em ambientes piscatórios integra saberes técnicos com valores éticos de sobrevivência, moldando não só comportamentos individuais, mas trajetórias laborais colectivas. Os resultados empíricos de Cawango confirmam o seu papel imperativo na formação dos adolescentes.
A educação familiar implica a transmissão de condutas comportamentais específicas e modelos educativos próprios de cada linhagem familiar. Esses modelos regulam interacções quotidianas e expectativas de longo prazo. Em contextos costeiros enfatizam a continuidade produtiva em detrimento de escolhas individuais. Esta herança comportamental assegura a pervivência cultural em contextos de carência, transcendendo o afectivo para se tornar uma estratégia de subsistência familiar.
O modelo educativo familiar engloba o conjunto de crenças, valores, mitos e metas que fundamentam a criação dos filhos (Callado, 2001). Manifesta-se em normas explícitas, estilos de comunicação e estratégias disciplinares. Estes elementos regulam a acção parental e influenciam a autonomia juvenil. Em Cawango, o modelo privilegia valores profissionais ligados à pesca artesanal, orientando o desenvolvimento para papéis predeterminados pela tradição económica.
Os pais e tutores de adolescentes na zona piscatória de Cawango adoptam um modelo educativo centrado em valores profissionais relacionados com a pesca. Este enfoque responde à dependência económica da actividade artesanal. As crenças transmitidas enaltecem a pesca como fonte de dignidade e provisão familiar. As normas decorrentes fomentam obediência e aprendizagem prática desde a infância. Este padrão alinha-se com achados empíricos que evidenciam a sua preponderância sobre influências escolares.
A actividade piscatória, na sua dimensão prática, não requer redefinição conceptual pela sua clareza nas comunidades costeiras. Contudo, a sua discussão revela matizes sociológicos profundos na organização familiar, centrando-se em processos de transmissão que perpetuam desigualdades e papéis. Em Cawango, a pesca emerge como eixo da vida quotidiana e da identidade colectiva.
Sob uma óptica sociológica, a pesca artesanal ilustra a reprodução social das classes laborais nas periferias costeiras. A divisão sexual do trabalho reforça estruturas patriarcais tradicionais: os homens assumem as capturas de maior risco, enquanto as mulheres processam e comercializam. Este binário herda-se através da educação familiar selectiva. Tais dinâmicas perpetuam dependências económicas intergeracionais.
A transferência de saberes piscatórios ocorre predominantemente do pai para o filho num continuum geracional. Este processo gradual assegura a sucessão quando o progenitor perde capacidade física, sendo planeado mediante ensinamentos progressivos adaptados à maturidade do sucessor. Em Cawango envolve não só técnicas, mas narrativas de orgulho familiar, consolidando a pesca como herança patrimonial.
O modelo geracional da actividade piscatória transmite-se intencionalmente de progenitores para descendentes (Almeida da Conceição, 2020). As lições dosam-se conforme as etapas do desenvolvimento adolescente. Os avós conferem legitimidade histórica a estas práticas. Este esquema regulado minimiza rupturas na cadeia produtiva familiar. Assim, os dados de observação em Cawango validam a sua eficácia prática.
A planificação da transmissão piscatória implica estratégias comunicativas autoritárias e exemplares. Os pais modelam comportamentos através da participação conjunta nas tarefas diárias, enfatizando a responsabilidade colectiva sobre os feitos individuais. Esta gradualidade previne sobrecargas prematuras nos jovens e, em consequência, fortalece a coesão familiar face às incertezas económicas.
Outras figuras familiares, como tios e avós, complementam a transmissão da importância da pesca, reforçando a narrativa da actividade como pilar vital da família. As suas intervenções acrescentam diversidade experiencial às lições paternas. Este tecido multigeracional assegura redundância cultural. Em Cawango observa-se isto em rituais de iniciação implícitos.
A educação familiar em Cawango posiciona a pesca como valor supremo, acima de alternativas de educação formal. Normas implícitas desencorajam desvios para estudos urbanos. Esta priorização responde a ciclos sazonais de captura e configura trajectórias de vida predeterminadas. Os resultados empíricos destacam o seu impacto nas taxas de abandono escolar.
Nesta mesma perspectiva, teorias sociológicas como a de Bourdieu explicam esta transmissão como capital cultural piscatório herdado. A divisão sexual actua como habitus que naturaliza papéis de género: as mulheres interiorizam o suporte logístico, os homens o comando técnico. Este enquadramento perpetua desigualdades, mas também resilência comunitária. A discussão em Cawango ilustra a sua vigência contemporânea.
A sucessão laboral do pai para o filho ocorre mediante provas progressivas de competência: inicialmente tarefas auxiliares e, depois, autonomia supervisionada. Este rito de passagem valida a maturidade profissional. Em contextos de envelhecimento populacional, acelera-se a transição de responsabilidades.
A influência familiar prevalece sobre a agência individual do adolescente, limitando explorações vocacionais alternativas. As decisões subordinam-se às necessidades do núcleo familiar. Esta dinâmica reforça solidariedade, mas gera tensões identitárias. Intervenções externas devem respeitar esta primazia cultural; o estudo propõe equilíbrios híbridos.
Em síntese, o modelo educativo familiar em Cawango integra a pesca como eixo de socialização integral (Callado, 2001). Valores profissionais transcendem o económico para forjar identidades colectivas. A transmissão gradual assegura sustentabilidade (Almeida da Conceição, 2020). Esta discussão valida a hipótese central do artigo.
A discussão sublinha a necessidade de pedagogias complementares que valorizem saberes familiares piscatórios, integrando técnicas modernas sem deslegitimar tradições. Fomentar o empoderamento juvenil dentro do quadro familiar potenciará o desenvolvimento sustentável em Benguela. As implicações transcendem o local para outros contextos semelhantes.
Esta exploração teórico-empírica posiciona a educação familiar como motor da reprodução piscatória. Liga teorias sociológicas às realidades vividas em Cawango, reafirmando a intersecção entre tradição e modernidade e convidando a investigações longitudinais sobre mudanças geracionais.
CONCLUSÕES
Os resultados da investigação confirmam que a educação familiar exerce uma influência directa e imperativa sobre a participação e o desempenho dos adolescentes na actividade piscatória artesanal de Cawango, cumprindo integralmente o objetivo de analisar este processo geracional. Por meio de uma abordagem mista descritivo-explicativa combinaram-se métodos teóricos (histórico-lógico, análise-síntese e indução-dedução) com ferramentas empíricas, tais como observação contextual, inquéritos e entrevistas semiestruturadas. Esta triangulação metodológica revelou que o modelo educativo familiar, ancorado em valores profissionais, crenças e normas transmitidas por pais, avós e tutores, estrutura a socialização juvenil de forma planeada e gradual. Assim, a pesca não se apresenta apenas como actividade económica, mas como eixo identitário que regula a continuidade familiar.
A transmissão dos saberes piscatórios opera mediante estruturas económicas familiares que priorizam a subsistência e a preservação cultural, moldando o papel do adolescente desde tenra idade. As estratégias comunicativas familiares, carregadas de autoridade paternal, limitam a agência individual dos jovens, subordinando-a a necessidades colectivas. Este padrão reforça a instituição familiar como principal agente de formação profissional em contextos com escassas oportunidades de educação formal.
Em consonância com o objectivo proposto, destaca-se a ausência de autonomia decisória dos adolescentes, cuja participação na pesca responde mais a imperativos familiares do que a vocações pessoais. Os inquéritos revelaram que 78% dos jovens percebem esta influência como inevitável, vinculada à dependência económica do agregado. Não obstante, surgem matizes positivos: a educação familiar fomenta competências práticas como resiliência e cooperação, essenciais ao desempenho piscatório. Esta dualidade sublinha as tensões entre tradição e modernização em comunidades costeiras como Cawango.
As implicações práticas destes achados apontam para a necessidade de intervenções educativas complementares que harmonizem a herança cultural com oportunidades de escolha individual. As autoridades locais e os programas de desenvolvimento poderão integrar oficinas de profissionalização piscatória que incorporem saberes familiares juntamente com técnicas sustentáveis e formação académica. Isto mitigaria riscos como a desistência escolar e a exposição laboral precoce dos jovens. Igualmente, recomenda-se fortalecer o diálogo intergeracional para potenciar a agência adolescente sem erodir a coesão familiar.
REFERÊNCIAS
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Conflitos de interesse:
Os autores declaram não ter conflitos de interesse.
Contribuição dos autores:
Valerio Canhala-Semente, Alenni Ramona Aguilera-Grave de Peralta, Narciso Rodrigues Cassoma-Sacata: Concepção e desenho do estudo, aquisição de dados, análise e interpretação, redação do manuscrito, revisão crítica do conteúdo, análise estatística e supervisão geral do estudo.
Declaração ética:
O estudo foi desenvolvido em conformidade com os princípios éticos da pesquisa científica. A participação dos sujeitos foi voluntária e foi obtido o consentimento informado dos participantes. Foram garantidos a confidencialidade, o anonimato e o respeito aos direitos das populações consideradas vulneráveis.