RAÇA E CLASSE. O PÚBLICO DE FUTEBOL EM SALVADOR (BRASIL) NAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO XX
RAZA Y CLASE . EL PÚBLICO DEL FÚTBOL EN SALVADOR (BRASIL) EN LAS PRIMERAS DÉCADAS DEL SIGLO XX
José Eliomar Filho1
E-mail: jeliomarfilho@yahoo.com.br
ORCID: https://orcid.org/0009-0008-5756-281X
1 Universidade Federal da Bahia (UFBA). Brasil.
Submission: 09/18/2025
Acceptance: 11/22/2025
Publication: 01/01/2026
RESUMO
Este artigo analisa a formação do público de futebol em Salvador (Bahia, Brasil) nas primeiras décadas do século XX, com base nas categorias de raça e classe social. O objetivo é compreender os conflitos e tensões presentes numa sociedade profundamente desigual, marcada pelas heranças do pós-abolição e pelas feridas ainda abertas da escravidão. Para isso, adota-se uma metodologia interdisciplinar que combina análise documental e histórica de fontes primárias, análise qualitativa de relatos e testemunhos, e um estudo sociológico fundamentado em teorias críticas sobre raça e estratificação social. O artigo interpreta as dinâmicas de poder e resistência entre as elites brancas (ou quase brancas), que buscam preservar sua hegemonia, e a população majoritariamente negra e mestiça, que disputa e ressignifica os espaços simbólicos do futebol. Conclui-se que o futebol funcionou como uma arena de tensões raciais e sociais na capital baiana, contribuindo para a compreensão da história social, do esporte e da construção de identidades no Brasil.
Palavras-chave:
Futebol, espectadores, experiência, pós-abolição, raça.
RESUMEN
Este artículo analiza la formación del público del fútbol en Salvador (Bahía, Brasil) durante las primeras décadas del siglo XX, a partir de las categorías de raza y clase social. El objetivo es comprender los conflictos y tensiones presentes en una sociedad profundamente desigual, marcada por las herencias del período posterior a la abolición y por las heridas aún abiertas de la esclavitud. Para ello, se adopta una metodología interdisciplinaria que combina el análisis documental e histórico de fuentes primarias, el análisis cualitativo de relatos y testimonios, y un estudio sociológico fundamentado en teorías críticas sobre raza y estratificación social. El artículo interpreta las dinámicas de poder y resistencia entre las élites blancas (o casi blancas), que buscan preservar su hegemonía, y la población mayoritariamente negra y mestiza, que disputa y resignifica los espacios simbólicos del fútbol. Se concluye que el fútbol funcionó como una arena de tensiones raciales y sociales en la capital bahiana, contribuyendo a la comprensión de la historia social, del deporte y de la construcción de identidades en Brasil.
Palabras clave:
Fútbol, espectadores, experiencia, pos-abolición, raza.
INTRODUÇÃO
O presente artigo objetiva analisar a formação dos espectadores de futebol em Salvador, capital do Estado da Bahia, no início do século XX, num contexto social marcado pelo fim da escravidão no Brasil e por uma cidade estruturalmente marcada pelo viés escravista. A população, formada majoritariamente por negros e mestiços, vivia intensas tensões, conflitos e disputas raciais com as elites locais, formadas por brancos (ou quase brancos) temerosos da igualdade social almejada pelos subordinados, que reagiram por meio de táticas e estratégias para preservar as hierarquias sociais (Oliven, 2002). Conforme destaca Ribeiro (2009), o pós-abolição no Brasil não significou o fim das desigualdades raciais, mas sim a continuidade das feridas da escravidão sob novas formas de dissimulação e exclusão, fenômeno que permeou as relações sociais no início do século XX.
Nesse sentido, o futebol emergiu como um espaço simbólico de disputa entre elites e grupos subalternizados, articulando não apenas o direito à prática esportiva, mas também o desejo de assistir e experienciar os jogos segundo suas próprias formas culturais e sociais. Essa disputa pelo controle e pela configuração dos espaços do futebol reflete as complexas dinâmicas entre raça e classe que Balibar & Wallerstein (2021) concebem como identidades ambíguas, nas quais os atravessamentos entre a nação, raça e classe social geram tensões constantes nas sociedades pós-coloniais.
Além disso, o futebol configura-se como uma prática social através da qual se manifestam consciências e experiências coletivas, em constante interação dialética com as estruturas sociais vigentes. Segundo Thompson (2012, 2021), as experiências vividas e as manifestações sociais, sejam elas espontâneas ou elaboradas, são moldadas pela estrutura social e expressam tanto formas de resistência quanto de reprodução das hierarquias estabelecidas, sendo palco de reivindicações pelo direito de agir e existir segundo modos próprios (Santos, 1959).
Dessa forma, este estudo propõe analisar o futebol em Salvador como uma arena de tensões sociais e raciais no início do século XX, evidenciando as disputas simbólicas e materiais no processo de construção das identidades culturais e sociais em um contexto pós-escravista, conforme também apontado por Santos Café (2022); e Sena (2012) em suas abordagens histórico-sociológicas do esporte e da cultura popular baiana.
METODOLOGIA
A pesquisa segue uma lógica dedutiva, aplicando métodos teóricos como análise-síntese, indução-dedução e o método histórico-lógico para a construção do conhecimento a partir das categorias de raça e classe social no contexto pós-abolição. No plano empírico, utilizam-se a análise documental de fontes primárias (jornais, revistas esportivas e arquivos de clubes da época), entrevistas e observação participante, sempre que possível, para captar as dinâmicas culturais e sociais do público atual e suas memórias históricas. A triangulação dessas abordagens, fontes e procedimentos visa garantir uma compreensão aprofundada das tensões sociais e raciais presentes na configuração do público futebolístico baiano, articulando elementos históricos, sociológicos e antropológicos para interpretar as representações e experiências vividas. Como os métodos empíricos complementam a lógica dedutiva na compreensão do tema estudado.
DESENVOLVIMENTO
O futebol aportou em Salvador no início do século XX com características muito semelhantes em relação a outros centros urbanos brasileiros onde o esporte chegou. Filhos das elites locais que regressavam das Ilhas Britânicas após período de estudos e ingleses que por motivos diversos viviam no Brasil, trazendo e incorporando a cultura, os hábitos, as tradições vivenciadas (em relação aos brasileiros estudantes) ou trazidas na bagagem como relação afetiva e identificação social, política e econômica (por parte dos ingleses).
Os memorialistas do futebol em Salvador indicam que em outubro de 1901 o esporte chegou pelas mãos do jovem Zuza Ferreira, filho do tesoureiro do British Bank sediado na capital baiana, que regressava de uma temporada de estudos no Velho Mundo. Aroldo Maia (1994) foi o principal memorialista dos primeiros momentos do futebol em Salvador ao elaborar almanaques onde registrava fatos e feitos destacados sobre os clubes, jogadores e eventos esportivos. Na mala, o jovem trouxe uma bola de couro e conhecimento adquirido a partir da experiência que vivenciou em sua passagem pelas terras inglesas sobre um novo esporte em ascensão e que cada vez mais se organizava por lá.
Apresentou a prática a seus pares e o futebol foi aceito entre eles. Enquanto novidade e envolto por ares de ‘civilidade’, as elites soteropolitanas vislumbravam fazer do futebol algo similar com o que já acontecia com outros esportes exercitados por eles na cidade como o críquete, o remo, a esgrima: praticá-los e acompanhá-los aos moldes europeus (sinal de civilidade), ao mesmo tempo excluindo as classes populares de acesso a esse divertimento, tanto social quanto racialmente.
As elites se posicionavam como responsáveis diretas pelo jogo e pela manutenção dos valores nobres e de civilidade do esporte, visando ser fiel à forma de jogar dos britânicos, inventores do jogo. Porém, essa defesa era confrontada pelo comportamento não condizente aos valores pregados pela ordem vigente, efeito das experiências vividas analisado por Thompson (2021), pelos subalternizados a partir de uma estrutura social e econômica excludente forjada no período colonial e imperial que impedia melhores condições de educação, lazer e da referida ‘civilidade’ defendida por estas elites para toda a sociedade, refletindo nesse contexto esportivo tanto na forma de jogar (por isso justificavam o impedimento dos pobres atuarem pelos seus clubes) e na maneira de assistir às partidas. Porém, os subalternizados viram no novo esporte uma possibilidade de lazer e divertimento que não estivesse no rol de distrações perseguidas pelas forças policiais ou proibidas pela Intendência Municipal através de códigos de posturas; regras de conduta atentas às necessidades de organização e ordenamento da cidade reclamadas pelos cidadãos junto aos seus representantes na Câmara Municipal. Até então, como brincar de pipa e arraia, jogar batedora, ou os jogos de azar como o do bicho.
Esse interesse popular, que rapidamente virou febre na cidade, acabou gerando uma tensão entre as elites e os populares em campo, como também no público espectador. Os conflitos se intensificaram a partir da prática do futebol por populares e, no nosso caso específico, pela forma como estes acompanhavam as partidas, em oposição à maneira como as elites entendiam ser a forma adequada: comportados, gestos discretos, aplausos. O povo, em movimento contrário, gritava, xingava, vaiava, por vezes agredia, extravasava sentimentos.
Em Salvador, essa gente espontânea era formada basicamente pela classe trabalhadora em seus cargos subalternizados, mas também por moleques (crianças e adolescentes pretos e mestiços) e por aqueles sem ofício regular, sem resistência fixa ou vivendo em habitações precárias ou irregulares, transeuntes das ruas, eminentemente pretos e mestiços (Fraga, 1996). Elites, imprensa e poder público os elegeram como alvo no combate à prática e no acompanhamento dos jogos dos times das elites, que estavam reunidos em um campeonato oficial comandados por uma liga gerida pelos próprios.
Elites e populares na capital baiana disputavam o espaço pelo direito ao esporte: de um lado, a elite se posicionava como detentora efetiva do futebol buscando manter o controle oficial a partir da criação de uma liga própria em 1904 visando estruturar o esporte na cidade ao seu molde com a organização de um campeonato, calendário de jogos porém restrito a clubes formados por membros dessas elites; do outro lado, os subalternizados em resposta acompanhavam os jogos de futebol das elites no Campo dos Martyres; Primeiro espaço público de prática de futebol na capital baiana, localizado no distrito de Sant’Anna. Atualmente chama-se Campo da Pólvora e estar localizado no bairro de Nazaré. À beira da área de jogo com modo especifico de se comportar, agir, taxados na imprensa como uma “malta de desocupados” que incomodavam as “distintas famílias” (Diário de Notícias, 1906), e praticavam o futebol em praças, terrenos baldios pelos distritos da cidade mesmo com o poder público visando restringir a prática a áreas específicas, restrito ao Campo dos Martyres no distrito de Nazaré, na Quintas da Barra, na Fonte do Boi no arrabalde do Rio Vermelho e no Largo do Papagaio no distrito da Penha (Thompson, 2025).
Essa separação social no começo das práticas do jogo na cidade nos faz compreender que essa 'proteção' buscada pelas elites ao seu novo divertimento importado da Europa visava afastar as classes populares considerando-os indignos para o divertimento, incapazes de compreender o real sentido do esporte bretão e inferiores para o convívio com membros das importantes famílias soteropolitanas na prática do futebol. Naquele começo de século XX em Salvador, as discussões sobre teorias raciais, mestiçagem estavam em voga a partir de médicos como Nina Rodrigues que se esforçavam na busca por justificar uma inferioridade intelectual dos descendentes de africanos onde a mistura de raças deveria ser evitada, apontando que comportamentos nocivos à sociedade (violência, agressões, assassinatos) eram reflexo dessa miscigenação que, na visão desses eugenistas. Conjunto de ideias difundidas entre o fim do século XIX e primeiras décadas do século XX de melhoria genética dos indivíduos a partir das restrições às migrações e principalmente de evitar o cruzamento de raças para não gerar indivíduos miscigenados, visto como um mal para uma sociedade, afetavam a nação brasileira.
Acreditavam ser necessário uma higienização pública, prevenir antes de curar. A mestiçagem deveria ser condenada, era considerada a causa das degenerações sociais, os contatos entre raças deveriam ser restritos e o futebol, como elemento novo desse tecido social soteropolitano, sofreria influências desse contexto. A ideia de raça e as discussões que produziram ganharam força no Brasil no século XIX. Antes, como explana Paiva (2015), o conceito de ‘raça’ nas línguas ibéricas possuía interpretações diversas; dicionários antigos de ambas as línguas tratavam de “raça de sol”, dando a entender que referia-se a “raio de sol”. Em espanhol outras duas referências apareceram: “raça de paño” ou “tipo de pano” e a partir do século XVII, “raça” ou “raza” passaram a distinguir tipos de animais. A partir dessa última definição que a palavra é definitivamente inserida nos dicionários portugueses, século XVIII, diferenciando espécies de cavalos ou cães, a exemplo.
Porém no século XIX quando as noções racialistas, evolucionistas e eugênicas alcançaram relevo, o termo passou a ser utilizado para diferenciar grupos étnicos em que europeus e seus descendentes de pele branca estavam em uma condição superior dentro da lógica socioeconômica enquanto africanos, sua descendência, povos nativos e a mistura étnica entre esses grupos que vieram a produzir uma grande miscigenação encontravam-se em uma condição de inferioridade. No Censo demográfico de 1872 pela primeira vez apareceu o item raça para diferenciar a população brasileira a partir da cor da pele, porém o que prevalecia era o estatuto da pureza de sangue, uma lógica herdada ainda do Império Português (Ribeiro, 2009).
A independência brasileira traria para aqueles que conduziriam o novo país alguns problemas, na visão deles, a serem solucionados: como alicerçar um estado nacional moderno forte com uma nação eminentemente miscigenada ou com número considerável de escravizados?. O pesquisador suíço Louis Agassiz tirou impressões do Brasil quando o visitou em 1865 taxando a:
Deterioração decorrente da amálgama das raças mais geral aqui do que em qualquer outro país do mundo, e que vai apagando rapidamente as melhores qualidades do branco, do negro e do índio deixando um tipo indefinido, híbrido, deficiente em energia física e mental (Schwarcz, 2005, como foi citado em Romão et al., 2018).
O Brasil era visto como caso único no mundo de intensa miscigenação racial, uma nação multiétnica, que se de um lado mostrava uma confluência de raças em um lugar específico convergindo para um grande caldeirão cultural por outro era apontada como a principal causa para o atraso social desse recém-nascido país. O jovem Estado brasileiro refletia um projeto social excludente retrato da condição racial de parte considerável da sua população e agia a partir da concepção de raças distintas e hierarquicamente desiguais. Nesse cenário, a intelectualidade brasileira de então vai abraçar teorias raciais europeias e estadunidenses, de maneira tardia, vistas como possíveis de explicar os problemas nacionais e apontar medidas a serem tomadas para encontrar soluções.
A década de 1870 foi o ponto de partida da proliferação dessas teorias raciais que miravam a miscigenação como o problema nacional. Dentre as diversas teorias, destacamos o darwinismo social (ou teoria das raças) que apresentava uma visão pessimista da miscigenação racial, tão latente no Brasil do último quarto do dezenove, vista como erro por não transmitir de forma plena características adquiridas de uma raça, principalmente a branca entendida como superior, gerava uma divisão entre culturas e uma preponderância do grupo étnico (ou rácio-cultural) no comportamento do sujeito. O produto do darwinismo social seria o eugenismo, uma concepção de eliminação das raças entendidas como inferiores, completando o encaixe referente no combate à miscigenação (Schwarcz, 2005, como foi citado em Romão et al., 2018).
Salvador teria nesse período sua produção científica e seu principal expoente nas discussões raciais: a Gazeta Médica da Bahia e Raymundo Nina Rodrigues. Fundada em 1866 por um grupo de médicos locais com objetivo de realizar “uma produção própria, de maior autonomia e prestígio para a profissão” (Schwarcz, 2005, como foi citado em Romão et al., 2018). Foi se transformando ao longo das décadas subsequentes em um baluarte do pensamento eugenista brasileiro com produções científicas que objetivavam explicar, combater e apontar medidas para os males que afligiam a nação, sendo a miscigenação, como já destacamos, um das principais chagas a atacar, condenada como uma degenerescência social que contribuía no alastramento de diversas doenças.
O médico legista Nina Rodrigues passou a escrever na revista na última década do século XIX, sendo um entusiasta dos estudos raciais realizando ao seu modo interpretações das teorias estrangeiras sobre o tema que chegavam ao seu conhecimento, transcrevendo para a realidade que vivia. “Raça surge como tema fundamental na análise desses autores [que escreviam na Gazeta] e em suas considerações e diagnósticos sobre os destinos da nação” (Schwarcz, 2005, como foi citado em Romão et al., 2018).
O periódico serviu como propaganda da ideia de que a mestiçagem era a causa das moléstias nacionais e pensadores como Nina Rodrigues se debruçavam em pensar uma saída, passando a usar de estudos de medicina legal para sentenciar o criminoso mesmo antes de efetivamente cometer o crime. Porém, esse ‘criminoso’ tinha uma feição pré-estabelecida: o mestiço, o fruto da imbricação das raças, figura embaraçosa, aquele que se encontrava em condições socioeconômicas geralmente difíceis ou precárias. Um tipo de indivíduo tão marcante e presente na paisagem urbana soteropolitana do fim do dezenove e início do século que estava para alvorecer.
A branquitude almejada e desejada para a nação que se desfazia dos nós da escravidão com bastante atraso e sem pensar estruturalmente em uma melhor qualidade de vida para os ex-escravizados e seus descendentes, parecia distante diante do imbricamento multirracial que o Brasil atravessava naquele momento e que pressionava pela sua participação dentro daquela sociedade. “Liberto o escravo, tornava-se óbvia a entrada do negro numa sociedade que se queria branca, sua presença, possível ou visível em todos os brancos.
E conforme salientado no começo dessa análise, as elites soteropolitanas (eminentemente brancas, na essência ou na aparência) caminhavam concatenadas com o contexto social vigente, embasadas de argumentos científicos a partir de discussões presentes no seu círculo social, na imprensa, nos estudos que realizavam, nos discursos dos professores nas escolas e faculdades que frequentavam, sendo por consequência retratadas na esfera social das práticas e divertimentos, como o futebol, com a busca pela exclusão das raças ditas inferiores de congraçar em coletivo aquele momento.
PARTE DOIS - CLASSE
Porém, ao seu modo, desenvolvendo as suas formas de praticar futebol e acompanhar as partidas, abrindo espaço para quem desejasse e tivesse capacidade de jogar não importando a raça, a classe social, a condição socioeconômica, a crença, populares foram ressignificando o jeito de jogar e acompanhar o futebol em Salvador. As elites, por mais que tentassem não conseguiam conter o jogo pelos campos espalhados pela cidade nem da presença dos subalternizados para assistir às partidas.
O povo acompanhante do futebol recebeu um duro golpe quando a liga das elites em 1907 resolveu levar as partidas do campeonato da cidade para um espaço esportivo privado no então distante arrabalde do Rio Vermelho; os jogos seriam disputados no Ground do Rio Vermelho, na atual rua Fonte do Boi, local de prática de hipismo. passando a cobrar ingressos, provavelmente em resposta ao incidente um ano antes de agressões verbais e físicas feita por "uma malta de desocupados" aos jogadores do Internacional de Cricket, clube formado exclusivamente por ingleses, em partida realizada no Campo dos Martyres.
O medo da igualdade social fazia as elites se reorganizarem visando a manutenção do seu status quo. Se havia dificuldade em ter acesso aos jogos da elite a partir daquele momento pelos custos adicionais de transporte e ingresso, concomitantemente as partidas jogadas pelos diversos distritos da cidade eram marcadas por grande público conforme informavam os periódicos locais. Largo da Soledade, Praça Conselheiro Almeida Couto, Engenho da Conceição, Quinta da Barra eram alguns dos lugares onde se praticava futebol em Salvador naquele início de século XX.
Uma hipótese a ser feita nesse momento da análise refere-se ao conceito de classe. Esse público inquieto, participativo, que surge praticamente junto ao futebol na cidade de Salvador era uma classe? Antes de buscar soluções para a indagação, podemos concluir que essa multidão de pessoas em torno dos campos acompanhando ao seu modo os jogos de futebol e causando incômodos às elites locais faziam parte de uma classe social específica, a dos subalternizados, formada por trabalhadores de baixa remuneração explorados em jornadas laborais extenuantes no comércio e em fábricas, funcionários públicos de baixo escalão, vendedores ambulantes ou fixos que batalhavam a sobrevivência nas ruas comercializando todo tipo de produto ou mesmo ofertando sua força de trabalho em serviços braçais em troca de algum dinheiro.
Porém também eram alocados junto aos considerados vadios: o ocioso sem trabalho regular, o delinquente costumeiro na prática de furtos e roubos, o envolvido em práticas consideradas indignas como jogos de azar e prostituição, além de meninos que perambulavam pelos caminhos da cidade a procura de algo para fazer sem um direcionamento, os moleques (Fraga, 1996). No texto “O primeiro impacto da cidadania sobre a classe social”, Thomas H. Marshall & Bottomore (2021) classificam as classes sociais em dois tipos: 1) por status; 2) pelas interações que ocorrem com as instituições existentes no âmbito político, educacional, econômico.
Entendemos que no contexto social soteropolitano identificamos as duas características de classe: a hierárquica, estabelecida pelos detentores do poder vigente a partir da sua relevância econômica, política que os posiciona enquanto topo na respectiva classe social e os que estão fora desse contexto serão considerados inferiores socialmente. Thompson (2021) na obra Costumes em Comum, quando formula uma dicotomia entre os costumes dos patrícios e dos plebeus na Inglaterra do século XVIII, traz um exemplo dessa divisão das classes por status.
O segundo tipo de classe social destacado, resultado de interações diversas com estruturas existentes e que produziram uma espécie de classe que replica o que foi imposto por influência do Estado, da Igreja, do Capital, gerando uma cultura frágil e em desarmonia com os hábitos e tradições locais. Ambos os tipos têm a intenção de dominar e doutrinar os da classe social de baixo em contraponto ao controle das classes sociais de cima.
Continuando a dialogar com teorias propostas por Thompson (2021) recorremos ao seu conceito de experiência, dividida entre a experiência vivida em confronto com a experiência percebida resultando em uma interação dialética, uma relação de tensionamento numa constante disputa hegemônica entre manter uma dominação cultural, um status quo, e lutar contra as imposições, ordens, doutrinas, dogmas preparados para conter, frear, coibir ações. A experiência permite entender homens e mulheres:
Como pessoas que vivenciam suas situações e relações de produção determinadas como necessidades, interesses e antagonismos, e em seguida 'lidam' com essa experiência em sua consciência e sua cultura... das mais complexas maneiras... e então (frequentemente, mas nem sempre, mediante as estruturas de classe resultantes) agem, por sua vez, sobre sua situação determinada (p.22).
O espectador popular do novo esporte a partir das vivências experimentadas e do que vivenciaram, fruto do contexto social pós-abolição porém ainda com resquícios da escravidão se mostrando presentes, passaram a reagir ao seu modo, contrariando a maneira de se comportar exigida pelas elites que utilizavam da sua estrutura de poder (poder público, imprensa) para exigir repressão a essa conduta, conforme aponta Ribeiro quando destaca que a “polícia e a imprensa contribuíam a seu modo para a racialização da repressão” (Ribeiro, 2009, p. 112).
Entendemos as ações e manifestações dos populares/espectadores como efeito das suas experiências vividas, como resposta à classe social vigente controladora da estrutura social e econômica que impedia melhores condições de educação, lazer e da referida 'civilidade' defendida pelas elites, que condenavam a maneira de assistir às partidas dos subalternizados que proferiam gritos, xingamentos, apupos, provocações e agressões àqueles que viam como adversários.
Essa experiência vivida dos espectadores insubordinados do Campo dos Martyres confrontava a experiência percebida representada pelas elites retratada como adeptos, podendo ser definida pela estrutura produtora da consciência social do indivíduo com objetivo de manter a hegemonia e a construção de uma forma de pensamento a ser imposta para toda a sociedade, desencadeando na interação dialética entre essas experiências, movendo a uma disputa entre esse espectador popular (alcunhado posteriormente de torcedor) e o adepto (forma como foram designados o público das partidas de comportamento considerado ‘civilizado’) nessa primeira fase do futebol na capital baiana.
Dividimos a análise das tensões e conflitos no futebol soteropolitano em três fases: 1) 1901-1912 referente à chegada do esporte pelas elites e com o intuito de segregar a prática ao seu séquito, impedindo de diversas formas a aproximação das classes subalternizadas ao jogo importado da Inglaterra; 2) 1913-1930, após o colapso da liga controlada pelas elites trazendo destaque para a prática e formas de acompanhar do jogo pelos distritos da cidade, em praças e campos baldios com organização própria em que mesmo em um segundo momento com o retorno dos clubes das classes abastadas às disputas oficiais e composição de uma nova liga, a popularização do futebol na sociedade local avançava consideravelmente; 3) 1931-1938, com transformações profundas no contexto social que envolvia o futebol, desde a sua consolidação perante a sociedade local, com predominância de público e atletas oriundos das camadas populares mesmo nos clubes de elite, passando por discussões referentes à profissionalização dos atletas, modernização da praça esportiva situada no bairro da Graça e ação ostensiva do poder público visando coibir excessos nos jogos.
A primeira definição para o público espectador de futebol no Brasil foi a de adepto, aquele que acompanhava a partida, conservando em comum com outros ali presentes a mesma atitude espectadora de assistir ao evento da mesma forma que desfrutava de uma peça de teatro, de uma ópera ou de um filme em uma sala de cinema. O termo ‘torcer’ referia-se a uma ação passional de acompanhar um jogo com predileção para um dos times, seguido do sujeito ‘torcedor’, tal como conhecemos hoje, provavelmente surgiu no Rio de Janeiro, nos primeiros anos de futebol no Brasil. O literato Paulo Barreto em crônica publicada na Gazeta de Notícias em 19 de julho de 1908 sobre uma série de amistosos entre brasileiros e argentinos destacava um “movimento patriótico” que tomava o público presente no campo do Paissandu afirmando que “sim, eu torcia. Para que negar? É impossível que os outros não fizessem o mesmo” (De Miranda Pereira, 2000).
Se comportavam como classe social, produzindo cultura, promovendo mudanças no ser social, inseridos no processo histórico de pós-abolição numa cidade eminentemente negra e mestiça, em um embate exposto de luta de classes que tinham como ‘ringue’ os disputados espaços à beira do campo de jogo num forte antagonismo de interesses. Novamente dialogando com Thompson (2021), que realizou uma reflexão interessante sobre as classes sociais entendendo que:
As classes não existem como entidades separadas que olham ao redor, acham um inimigo de classe e partem para a batalha. As pessoas se vêem numa sociedade estruturada de um certo modo, suportam a exploração (ou buscam manter poder sobre os explorados) identificam os nós dos interesses antagônicos, debatem-se em torno desses mesmos nós e, no curso de tal processo de luta, descobrem a si mesmas como uma classe. Classe e consciência de classe são sempre o último e não o primeiro degrau de um processo histórico real. (p. 274)
A consciência de classe estava presente nas manifestações espontâneas daqueles indivíduos que impedidos de atuar com/contra membros das elites no campeonato oficial da cidade do Salvador, apresentavam-se à maneira que sabiam, na forma como foram forjados diante daquela sociedade que os excluíam de diversas formas, inclusive nas práticas de lazer. Era uma forma de consciência de si próprios, do jeito de ser que lhes era característico, que os identificava, não um arremedo ou caricatura a partir de uma imposição estrutural visando seguir padrões externos, como a forma de contemplar um jogo no qual as elites entendiam ser o comportamento nos campos europeus. As elites locais tinham uma visão ultrapassada do futebol na Inglaterra como um esporte das classes abastadas. De acordo com Franco (2007), o esporte nas Ilhas Britânicas teve uma primeira fase, entre 1848-75, chamada de pedagogia elitista inglesa em que prevalecia o ideal de prática e acompanhamento do escol daquela sociedade.
A segunda fase, entre 1876-1904, ele classificou como a das “reivindicações populares”, em que o esporte se espalhou pelo interior do país, passou a ser praticado na década de 80 nas escolas públicas frequentadas pelas classes menos abastadas, que desde 1871 o ensino primário havia se tornado obrigatório. Caía em desuso o dribbling game, forma individualista de jogar da burguesia inglesa, e ascendia o passing game, jogo solidário do operariado escocês. Promoviam um rompimento na maneira de pensar, de se conscientizar e de agir do indivíduo popular impactando em sua ação humana. As elites observavam a conduta das classes populares organizando suas tropas para o ataque contra esses comportamentos considerados inadequados a partir de códigos de distinção, posturas e reprimendas por parte da imprensa, polícia e sociedade:
Era cada vez mais recorrente a ênfase num discurso que os associavam a comportamentos ‘inadequados’, próprios ao tempo da escravidão, ‘perigosos à ordem pública’, o que justificava a necessidade do controle e reiterava que, mesmo sendo libertos e nacionais, eles [trabalhadores] guardavam a predisposição, quiçá inata, para a subversão (Ribeiro, 2009, p.180).
O incômodo das classes dominantes com os populares na beira do Campo dos Martyres ocorreu já no primeiro jogo oficial de futebol na capital baiana, no campeonato da cidade de 1905 em que o Diário da Bahia chamava atenção em que “pede-se ao publico para não invadir o campo de jogo durante o match, pois, tanto atrapalha os jogadores quanto impossibilita as famílias [que estavam com cadeiras garantidas na margem do campo de jogo] de ver” (Diário de Notícias, 1906, p. 1). As elites locais tinham uma visão ultrapassada do futebol na Inglaterra como um esporte das classes abastadas.
De acordo com Franco (2007), o esporte nas Ilhas Britânicas teve uma primeira fase, entre 1848-75, chamada de pedagogia elitista inglesa em que prevalecia o ideal de prática e acompanhamento do escol daquela sociedade. A segunda fase, entre 1876-1904, ele classificou como a das “reivindicações populares”, em que o esporte se espalhou pelo interior do país, passou a ser praticado na década de 80 nas escolas públicas frequentadas pelas classes menos abastadas, que desde 1871 o ensino primário havia se tornado obrigatório. Caía em desuso o dribbling game, forma individualista de jogar da burguesia inglesa, e ascendia o passing game, jogo solidário do operariado escocês.
Ao longo das demais partidas em um total de oito do torneio de futebol daquele ano não foram registrados tumultos, confusões ou comentários depreciativos sobre os espectadores, mas chamava atenção o entusiasmo do público com a novidade esportiva, conforme trazia a expectativa pelo match em que "esta partida será muito animada, visto terem de jogar os clubs que têm maior número de adeptos" (Diário de Notícias, 1906, p.1). Já contabilizando que o Sport Club Victoria e o Sport Bahiano eram os times da cidade que mais atraíam público para o Campo dos Martyres. Também informava que estaria “à disposição das famílias 100 cadeiras”. No dia posterior ao jogo, o Diário da Bahia trazia que "dos matchs realizados esse foi o mais animado, visto jogarem dois clubs que contam muitos partidarios, sendo extraordinariamente applaudido ambos" (Diário de Notícias, 1906, p.1).
Os jornais locais descreviam um grande entusiasmo com a agitação que a novidade vinda da Europa promovia e as expectativas ampliavam para 1906 com a disputa do segundo campeonato de futebol da cidade a iniciar em maio. No dia sete, a espera se confirmou com o Diário de Notícias relatando “enorme concrurrencia, o primeiro match de fottball, do campeonato de 1906. O campo estava repleto de apreciadores, entre os quaes distriguiam-se ostentando elegantes toiletes das cores symbolicas dos clubs contendores as gentis senhoritas da escol de nossa sociedade, adeptas enthusiastas do foot-ball" (Diário de Notícias, 1906, p.1). Vitória e São Salvador levaram ao Campo dos Martyres grande público com o periódico fazendo questão de diferenciar a plateia pelas peças de roupa de qualidade. Por sua parte Fraga (1996), relatava que “a condição de pobreza explicitava-se também na precariedade das roupas das pessoas” (p. 28). Os pobres mal tinham roupas e quando tinham, pouco adequadas à realidade das elites, a ponto de serem destacadas nos jornais pelos trajes usados em eventos públicos como uma partida de futebol em um dia de domingo.
O segundo jogo com a estreia do então campeão (o Internacional de Cricket) e a terceira partida corroboravam o grande público do primeiro match mesmo com as fortes chuvas que atingem Salvador historicamente no outono. Foi um time de futebol soteropolitano de vida breve composto apenas por ingleses que residiam em Salvador, em suma, ocupando cargos de chefia em instituições desse país que haviam se instalado na cidade ou donos de estabelecimentos e negócios ou mesmo filhos destes que acompanhavam a família alhures (Maia, 1994). Porém a terceira rodada, que colocaram frente a frente os líderes do torneio naquele momento (Internacional e São Salvador), levaram de acordo com o Diário de Notícias 5 mil pessoas na beira do campo, presentes em destaque as “distintas famílias” soteropolitanas (Diário de Notícias, 1906).
O sexto jogo, realizado em 10 de junho reuniria o Internacional de Cricket e o Sport Club Victoria, já destacado como um clube que à época possuía muitos adeptos, confirmou expectativas locais com “grande assistencia” e “concurrencia” porém o que marcou o match foi o comportamento de parte do público em volta do campo. Os relatos nos periódicos informaram que “é de lamentar que uma malta de desoccupados perturbem bellas partidas ... prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os escutar offensas ... e dando triste idéa dos nossos fôros de civilisados” (Diário de Notícias, 1906, p. 1).
Demonstravam preocupação com a impressão que os ingleses teriam do comportamento da sociedade local: “notar que o Internacional é composto por ingleses, que devem ter de nossa parte, como hospedes que são, todas as distincções.” E exigiam do poder público uma ação: “a polícia bem podia fazer sanar esta incoveniencia que vae se tornando um péssimo costume” (Diário de Notícias, 1906, p.1). Na seção Os Sports, o Jornal de Notícias expressavam sua visão sobre o ocorrido em que “diversos espectadores que estiveram dignos de censura ... desrespeitaram um dos clubs que jogavam, chegando até ao abuso de atirarem para dentro do campo pedras, chinelas, bengalas, etc” (Diário de Notícias, 1906, p.1). Revelava também preocupação com os “extrangeiros ... nosso hospedes, dignos de todo o acatamento” e com o futuro do novo esporte: “isso é de péssimo efeito e será para lamentar que entre nós o foot-ball não possa continuar” (Diário de Notícias, 1906, p.1).
Até a recém-nascida Revista do Brazil, magazine de variedades editada na capital baiana também colocou seu ponto de vista sobre a peleja. Discorria sobre a presença bretã em nossa sociedade, trazendo seus hábitos, a exemplo seus diversos gêneros esportivos, e que “tão grande e poderosa foi a corrente de sympathias alcançada no nosso meio que não tardou muito a ser introduzido entre nós ... e foi crescendo de tal modo o enthusiasmo da nossa sociedade” (Diário de Notícias, 1906, p.9). Formando importantes ligas no início daquele século como a LBST e a Federação dos Clubs de Regatas da Bahia, de acordo com o artigo “contam no seu seio para mais de mil jovens que se dedicam ao sport, contando sempre com o valioso concurso daquelles que são e devem ser considerados os paes do <<sport>> na Bahia” (Diário de Notícias, 1906, p.6).
Porém, o conflito esportivo eclodido no referido jogo, expôs as tensões sociais, raciais da sociedade soteropolitana. O artigo continuava sua análise se voltando para o público que afetaram os ingleses no Campo dos Martyres: “surge de um centro vicioso e immundo, a querer contestar os nossos foros de civilisados, uma sucia de indivíduos da mais baixa estirpe, para vaiar o brioso team... dando assim um attestado tristíssimo que esses indivíduos não conhecem os mais rudimentares princípios de civilidade” (Diário de Notícias, 1906, p.6).
Ou seja, a imprensa retratava o entusiasmo com foot-ball em um cenário onde os papeis estavam definidos e que não deveriam ser alterados: as elites como protagonistas do novo esporte atuando, administrando e enquanto plateia de destaque; já os populares fariam figuração em volta do campo de jogo corroborando para o sucesso do espetáculo. Porém se manifestavam com um comportamento considerado incivilizado e antagônico aos valores pregados pelas classes abastadas, entendidos como o modelo ideal de conduta havia saído do controle em Salvador naquele jogo. Não seremos anacrônicos de chamar de ‘torcedores’ parte do público à beira do campo de jogo que agiu de forma mais enérgica contra os ingleses do Internacional, tendo em vista que a definição ainda não existia em 1906, mas o que entendemos hoje como tal, com seus problemas e idiossincrasias estavam presentes ali, e que causaram estupefação nas elites soteropolitanas.
Além de não trajarem roupas que chamavam atenção dos cronistas dos jornais da época que resenhavam sobre as partidas de futebol, também o modo de agir causava assombro. “Não só o aspecto visual, mas também o comportamento e as palavras dos pobres, com suas ‘indecências’ e ‘torpezas’, feriam sensibilidades” (Fraga,1996, p. 143). A ideia das elites eram impor um limite aos costumes populares a partir de uma disciplina do cotidiano. As ruas eram retratadas como perigosas, composta de risos, troças, perigos, palavras de baixo calão, insultos e a intenção do poder público era impor uma ordem urbana que reduzisse ao máximo as vias públicas dos incômodos populares. O mesmo valeria para os campos de jogo a partir do ocorrido na partida entre Sport Club Victoria e Internacional de Cricket, que moldaria toda a dinâmica de assistir futebol na capital baiana.
CONCLUSÕES
Logo após o referido jogo, o Internacional de Cricket anunciou sua desistência do campeonato de futebol da cidade daquele ano. Tentativas diversas de interceder e fazer os ingleses voltarem atrás na decisão foram feitas mas sem nenhum êxito. O torneio continuou, o público se mantinha numeroso e outro fenômeno era relatados nos jornais: partidas eram disputadas pelos diversos distritos da capital baiana.
Para o campeonato do ano posterior, mesmo com a LBST tentando golpear o público popular levando a disputa do torneio para o arrabalde do Rio Vermelho, àquele momento uma área distante do centro comercial, demográfico e político de Salvador com a ideia de retomar às rédeas firmes do esporte para si, cerrando o acesso de parte considerável do público espectador às partidas ao distanciar as disputas do torneio para o Ground do Rio Vermelho, quem foi contra golpeado foram as elites com o esvaziamento da disputa e do interesse pelos seus jogos. Em contrapartida a curiosidade cada vez maior das camadas populares pelo futebol pelos diversos lugares da cidade, conduziu a uma progressiva decadência da Liga das elites, vindo a eclodir cinco anos depois. Ao mesmo tempo, jogos gratuitos realizados por clubes das classes populares em ligas menores espalhados pela cidade eram sucesso ao ponto de a imprensa passar a noticiar com maior regularidade os seus eventos e o poder público conceder permissões de práticas em diversas áreas da cidade.
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Conflitos de interesse:
O autor declara não ter conflitos de interesse.
Contribuição do autor:
José Eliomar Filho: concepção e desenho do estudo, aquisição de dados, análise e interpretação, redação do manuscrito, revisão crítica do conteúdo, análise estatística e supervisão geral do estudo.