O LUGAR ESCOLAR E O ENSINO DA HISTÓRIA DA ÁFRICA: A EDUCAÇÃO BRASILEIRA E A CULTURA OCIDENTALIZANTE
EL LUGAR ESCOLAR Y LA ENSEÑANZA DE LA HISTORIA DE ÁFRICA: LA EDUCACIÓN BRASILEÑA Y LA CULTURA OCCIDENTALIZANTE
Elaine De Jesus Silva-Honório¹
E-mail: elainedejesus0009@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-5334-4237
Raiane Aragão-Silva¹
E-mail: aragaoraiane7@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0009-0000-7362-2511
¹ Universidad Federal de Bahía (UFBA). Brasil.
Submission: 09/21/2025
Acceptance: 11/26/2025
Publication: 01/01/2026
RESUMO
O projeto "África na escola: historicidades, saberes e vivências", executado em 2023 no Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED) de Vitória da Conquista, Bahia, surgiu da necessidade identificada por estagiários e professores tutores durante a prática docente de fomentar o debate sobre a história africana na educação básica brasileira, particularmente no Ensino Médio. Com o objetivo de promover uma reflexão crítica e contextualizada que rompesse com visões eurocêntricas e estimulasse a construção da consciência histórica, a pesquisa foi implementada por meio de uma prática supervisionada do Programa Residência Pedagógica (PRP) de História da CAPES. Metodologicamente, adotaram-se métodos de investigação histórica, incluindo a análise de fontes primárias e documentais, a pesquisa oral e uma abordagem problematizadora, o que permitiu aos estagiários desenvolver e integrar atividades pedagógicas concretas em sala de aula. Como resultado, evidenciou-se a efetividade dessas estratégias para enriquecer a inclusão de conteúdos africanos no currículo escolar. Concluiu-se que a integração de teoria e prática por meio de tais métodos foi fundamental para desmontar perspectivas hegemônicas e fomentar uma compreensão mais complexa e diversa da história nos estudantes.
Palavras chave:
Educação básica, ensino de África, programa residência pedagógica.
RESUMEN
El proyecto "África en la escuela: historicidades, saberes y vivencias", ejecutado en 2023 en el Instituto de Educación Euclides Dantas (IEED) de Vitória da Conquista, Bahía, surgió de la necesidad identificada por pasantes y profesores tutores durante la práctica docente de fomentar el debate sobre la historia africana en la educación básica brasileña, particularmente en la Educación Media. Con el objetivo de promover una reflexión crítica y contextualizada que rompiera con visiones eurocéntricas y estimulara la construcción de la conciencia histórica, la investigación se implementó mediante una práctica supervisada del Programa Residencia Pedagógica (PRP) de Historia de la CAPES. Metodológicamente, se adoptaron métodos de investigación histórica, incluyendo el análisis de fuentes primarias y documentales, la investigación oral y un enfoque problematizador, lo que permitió a los pasantes desarrollar e integrar actividades pedagógicas concretas en el aula. Como resultado, se evidenció la efectividad de estas estrategias para enriquecer la inclusión de contenidos africanos en el currículo escolar. Se concluyó que la integración de teoría y práctica a través de dichos métodos fue fundamental para desmontar perspectivas hegemónicas y fomentar una comprensión más compleja y diversa de la historia en los estudiantes.
Palabras clave:
Educación básica, enseñanza de África, programa de residencia pedagógica.
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa nasce do desejo de compartilhar impressões e aprendizados vivenciados como bolsistas do Programa de Residência Pedagógica (RP) -CAPES, durante a trajetória no Projeto "África na Escola: africanidades, saberes e vivências". Realizado no Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED), o projeto surgiu ao nos depararmos com a carência de informações, tanto entre estudantes quanto entre docentes, sobre as riquezas históricas, culturais e religiosas da África. Assim, este artigo propõe-se a discutir a relevância de dar visibilidade à história africana no ambiente escolar, relatar o desenvolvimento do projeto e refletir sobre o impacto dessa experiência no aprendizado histórico dos alunos.
Quando se fala em África, o senso comum ainda atribui rótulos de miséria, selvageria e atraso. Infelizmente, nas escolas da rede básica de educação brasileira, essa visão de sociedade também é comum, estando presente em todas as fases escolares. Nesse cenário, observa-se que parte da população brasileira ainda possui imagens generalizantes e retrógradas sobre o continente africano, marcadas pelo desconhecimento e pela reprodução de ideias hegemônicas e ocidentalizadas, que foram atribuídas à colonização e são reproduzidas até os dias atuais. Contudo, essa visão problemática se revela não só no senso comum, mas também no meio acadêmico, conforme abordado por Lima (2004):
O fato é que nossos antigos historiadores trataram indevidamente, ou ignoraram, a participação africana em nossa formação, influenciados por preconceitos originários da sociedade escravista, entre os quais os ideais de branqueamento da população brasileira nutridos, desde meados do século XIX, por boa parte das elites nacionais (p. 84).
No decorrer dos anos, a África tornou-se mais presente nos livros didáticos, principalmente nos de História. No entanto, as menções ao continente, suas culturas, povos e histórias apareciam majoritariamente de forma complementar à história dos europeus. Defendia-se que a luta dos africanos e afrodescendentes deveria ser estudada dentro da história do Brasil, ou dentro da "luta dos dominados", quando fossem abordados o cenário colonial e o sistema escravista. Como afirma Hoffmann (2003), até 1996, os textos oficiais tratavam a África sempre de forma secundária; os conteúdos nos quais figuravam menções ao continente eram aqueles relacionados à colonização, tráfico negreiro, imperialismo e independências na África. Assim, mesmo após a inclusão de conteúdos que realmente contribuem para melhor compreensão da história africana nos currículos das escolas brasileiras, ainda se percebem deficiências nos processos de ensino e aprendizagem.
Nesse sentido, na prática é perceptível que os conteúdos sobre história da África ainda aparecem de forma rasa e esporádica, com maior concentração em datas comemorativas como o feriado da Consciência Negra, em 20 de novembro, ao invés de perpassar todo o currículo escolar. Dessa forma, o pouco que se vê sobre a África não é suficiente para romper com velhos estigmas pejorativos que, por séculos, marcam o ideário que temos sobre o continente africano, corroborando para a manutenção de preconceitos.
Estudos recentes, como os de Sousa Fideles et al. (2022); e Lima (2016) mudam esta visão, alargando discussões mais coesas e que fogem da reprodução de generalizações, mas ainda assim é preciso saber levar essas questões para a sala de aula. As problemáticas aqui levantadas evidenciam a necessidade de um ensino sobre a África que busque romper com os velhos estigmas preconceituosos e que trace estratégias para contornar questões ainda não resolvidas no que se refere à aderência e práticas pedagógicas sobre a história da África, e que de fato reconheçam a diversidade e complexidade desses povos.
Em 2003, foi promulgada a Lei nº 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de educação básica (públicas e privadas) de todo o país. Os currículos deveriam assim incluir "o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política" (Congresso Nacional do Brasil, 2003). Com isso, vemos significativos avanços quanto à garantia e discussão sobre o ensino da África na educação brasileira; entretanto, a lei não assegura a superação de todos os problemas e também não conseguiu reverter de modo imediato a idealização já consagrada na mentalidade social acerca do continente africano.
Diante disso, este artigo tem como objetivo relatar a experiência vivenciada durante a execução do Projeto sobre a África no Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED), bem como analisar as impressões manifestadas pelos alunos, tanto nas sondagens iniciais quanto nas avaliações realizadas após a conclusão do projeto. Além disso, propõe-se a refletir sobre o próprio processo de ensino-aprendizagem histórica envolvido nessa trajetória.
MATERIAIS E MÉTODOS
A metodologia do projeto baseou-se na prática supervisionada desenvolvida no Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED) por meio do Programa de Residência Pedagógica (RP) da CAPES, que possibilitou aos bolsistas a aplicação direta de atividades pedagógicas em sala de aula, integrando teoria e prática. Para isso, utilizaram-se métodos de pesquisa histórica orientados para o ensino, como a análise crítica de fontes primárias e documentais e a promoção da pesquisa oral, incentivando o contato com testemunhos e saberes culturais de origem africana. Ademais, adotou-se uma abordagem problematizadora que estimulou a reflexão crítica dos estudantes para questionar e superar as visões estereotipadas e eurocêntricas sobre a África, presentes tanto no senso comum quanto no ambiente escolar. A experiência incluiu a aplicação de sondagens iniciais para mapear percepções e conhecimentos prévios dos estudantes sobre a África, bem como avaliações posteriores para analisar os avanços na aprendizagem histórica ao longo do projeto. Essa combinação metodológica buscou promover a inclusão contextualizada e significativa da história africana no currículo escolar, respeitando a complexidade e diversidade cultural do continente e contribuindo para a construção da consciência histórica crítica dos alunos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O Programa de Residência Pedagógica (PRP), criado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), tem possibilitado experiências significativas para a formação docente, aperfeiçoamento e preparação profissional dos licenciandos. Para uma melhor qualificação dos professores em formação, o contato com o cotidiano escolar desde o período da graduação se faz necessário. Além disso, a inserção dos alunos da graduação no entorno escolar o quanto antes tem se revelado fundamental para melhor preparar os graduandos para realizar práticas pedagógicas produtivas em sala de aula. O PRP (Programa de Residência Pedagógica) vem, justamente, como forma de viabilizar esse contato.
O presente artigo visa apresentar a experiência de residentes do Programa de Residência Pedagógica (PRP), que culminou no projeto pedagógico intitulado "África na Escola: africanidades, saberes e vivências". O projeto contou com a participação dos residentes, juntamente com a professora regente que acompanhava e orientava os estagiários no referido colégio. Foi desenvolvido no Colégio Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED), na cidade interiorana de Vitória da Conquista-BA. O IEED, situado na Praça Guadalajara, bairro Recreio, é uma das instituições mais tradicionais da cidade, fazendo parte da história de Vitória da Conquista há mais de 70 anos. Atualmente, a instituição atende alunos do ensino médio, na modalidade técnico de manhã, integral no matutino e vespertino, e Educação de Jovens e Adultos (EJA), no noturno. O colégio conta com boa estrutura de salas de aula, sala de multimídia, quadra poliesportiva coberta, refeitório, sala dos professores e secretaria. Seu público advém de diversos bairros da cidade e dos distritos localizados na zona rural.
O projeto pedagógico aqui apresentado foi pensado a partir das observações e inquietações feitas pelos estagiários/residentes do Programa de Residência Pedagógica (PRP), diante da realidade escolar do colégio, que se caracterizava pela ausência (em boa parte do corpo discente, e até mesmo docente) de conhecimentos críticos sobre história, cultura e religiosidade africana. Por meio do ensino de história da África, teve-se como intuito promover discussões acerca dos estudos sobre a África, trazendo em perspectiva a desconstrução hegemônica e simplista por muito tempo atribuída ao continente.
A base metodológica deste trabalho constitui-se como pesquisa teórico-prática. Partiu-se da experiência da realização do Projeto sobre a África no IEED e das impressões relatadas pelos alunos, tanto nas sondagens que precederam quanto nas que sucederam ao Projeto. Bem como, analisaram-se diversos materiais bibliográficos pertinentes ao tema, como artigos, trabalhos de conclusão de curso e discussões realizadas em grupo sobre a referida temática.
O projeto pedagógico e o ensino de história da África em prática
No Instituto de Educação Euclides Dantas (IEED), as lacunas no aprendizado sobre a África se fizeram evidentes no corpo estudantil das turmas que estavam sendo acompanhadas pelos residentes. Durante o período de regência, os alunos do colégio apresentaram lacunas quanto ao aprendizado sobre o continente. Conforme previsto no currículo oficial para a primeira série do Ensino Médio, entre os conteúdos estabelecidos, estuda-se a História Antiga da África. Durante a introdução do conteúdo, por meio de uma sondagem inicial dos conhecimentos prévios dos alunos (realizada em onze turmas do 1º ano e em duas turmas do 2º ano), foram feitos questionamentos aos alunos quanto ao que sabiam sobre o continente africano e seus povos. A partir das respostas, constatou-se que o acesso ao ensino sobre a África foi bastante limitado. Apesar de alguns demonstrarem conhecimentos coesos, a maioria dos alunos revelou a reprodução de estereótipos, além de diversas lacunas e carências no aprendizado. Conforme a tabela 1, foram comuns depoimentos como:
Tabela 1. Conhecimentos prévios dos alunos.
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“Continente com muitas pessoas necessitadas” (Aluno 1, 2023); |
“Que o povo de lá passava muita fome e que faziam rituais para diversos deuses” (Aluno 2, 2023). |
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“Um lugar só de floresta, com animais selvagens por toda parte” (Aluno 3, 2023); |
“Um lugar de guerras e pessoas doentes por lá” (Aluno 4, 2023); |
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“Continente era isolado do resto do mundo e sem desenvolvimento” (Aluno 5, 2023). |
“Um continente rico em arte, música, culinária e tradições valiosas” (Aluno 6, 2023); |
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“Com muitos países do continente africano com guerras e doenças graves como o Ebola.” (Aluno 7, 2023) |
“Um lugar rico em cultura e tradições.” (Aluno 8, 2023) |
Quando questionados oralmente sobre o que associavam à palavra "África", os alunos, em sua maioria, utilizaram termos de conotação negativa, como "pobreza", "escravidão", "savanas", "animais exóticos", "pouco desenvolvimento" e "fome". Alguns poucos mencionaram aspectos positivos, como "diversidade cultural", "riquezas minerais", "grandes rios" e "Egito"; porém, ficou evidente que o imaginário predominante era majoritariamente negativo. Diante desse cenário, propôs-se a criação de um projeto pedagógico escolar que abordasse a temática africana de maneira ampla, buscando problematizar estereótipos e desconstruir percepções equivocadas reproduzidas no ambiente escolar.
O ensino de história da África tem como intuito romper com a história eurocêntrica, na qual se consagrou a ideia de que o continente africano "seria naturalmente atrasado, despossuído de história" (Lopes & Simas, 2020, p. 15). Pensando nisso, o projeto teve como objetivo apresentar para os alunos uma contra-narrativa, abordando o processo de formação do continente africano a partir de sua cronologia, apontando seus aspectos históricos, culturais, políticos, econômicos, religiosos e sociais, destacando alguns reinos e impérios, com o intuito de evidenciar a diversidade presente no território africano, entendendo assim sua primazia caracterizada pelo surgimento da humanidade, das civilizações e da cultura, e a importância cultural da construção da identidade brasileira.
O projeto foi planejado para ser desenvolvido ao longo da II unidade do ano escolar, sendo suas ações integradas às aulas regulares. Inicialmente, os conteúdos abordados incluíram o estudo de Kemet (Egito) e Kush, que posteriormente se expandiu para outros reinos africanos, como Congo, Mali, os povos bantos e Axum. As aulas tiveram como objetivo construir um arcabouço teórico sólido, oferecendo aos discentes os conhecimentos necessários para compreender e aplicar os conteúdos trabalhados. Dessa forma, o projeto foi estruturado em duas etapas: na primeira, ocorreram as aulas expositivas e dialogadas; na segunda, aconteceu a culminância do projeto, na qual os alunos produziram e apresentaram os trabalhos resultantes do aprendizado atribuído em sala.
A disciplina de história tem como intuito mostrar para os discentes o passado, para entender o presente. Mas para isso, é necessário pensar um ensino na perspectiva da didática histórica. Como aponta Rüsen (2010), a prática docente e a produção do conhecimento histórico carregam elementos específicos, tendo a necessidade de se construir metodologias, como também construir reflexões conceituais e específicas para compreender essa área de conhecimento. Nesse sentido, o ensino de história guarda uma didática própria, que o diferencia de outras áreas do conhecimento. Posto isto, o professor de história não tem apenas que reproduzir datas e os fatos históricos; para além disso, é importante pensar numa didática histórica que estimule reflexões, opiniões e senso crítico na sociedade em que o aluno vive. O professor tem como desafio levar o conhecimento histórico de modo que faça sentido para a vida prática do aluno.
É de suma importância apresentar para os alunos o ensino da aprendizagem histórica, pois é um "processo que permite ao estudante refletir sobre a experiência temporal que o conhecimento histórico pressupõe, atribuindo sentido e orientação à vida prática e compreensão da identidade histórica e cultural dos indivíduos" (Fernandes & Nogueira, 2014, p. 239). As aulas foram pensadas pelos discentes do Programa Residência Pedagógica, juntamente com os professores supervisores, traçando várias estratégias para o aprendizado histórico do aluno, a fim de que fizesse despertar neles mais interesse sobre o tema, além de fazê-los entender as contra narrativas sobre a história da África.
Posto isto, alinhado com o propósito de fazer os alunos terem mais interesse nas aulas de história e assim trazer sentido no conteúdo abordado, iniciaram-se as aulas com questões que estimulavam os conhecimentos prévios dos alunos. De acordo com Fernandes (2011), ao planejar o ensino de História, é fundamental que o professor considere as experiências, valores e representações que os alunos já possuem, pois, esses conhecimentos prévios influenciam diretamente a forma como eles compreendem e se apropriam dos conteúdos históricos.
No primeiro momento do projeto, foram realizadas aulas expositivas dialogadas, nas quais se lançaram questionamentos para estimular nos alunos um olhar crítico sobre os problemas sociais e as vivências do cotidiano, promovendo debates sobre racismo, machismo e outras formas de preconceito. Outra estratégia utilizada foram as dinâmicas, como a análise de músicas, buscando captar o interesse dos estudantes por meio de artistas atuais e conhecidos pela maioria dos alunos, como Baco Exu do Blues e Djonga, com as canções *Bluesman* e *Corra*. Também foram trabalhados jogos, como a "caminhada do privilégio", que possibilitaram aos alunos refletir sobre suas próprias experiências sociais, culturais, econômicas e individuais. Essas atividades visaram favorecer a construção de ideias, o fortalecimento da identidade e, consequentemente, o desenvolvimento da consciência histórica. A consciência histórica possui a "função prática de dar identidade aos sujeitos e fornecer à realidade em que vivem uma dimensão temporal, uma orientação que pode guiar a ação intencionalmente, por meio da mediação da memória histórica" (Moreira & Braga, 2005, p. 301).
Na segunda etapa do projeto, cada turma ficou responsável por produzir painéis educativos, com seu respectivo tema, e montar *stands* com disposição cronológica na formatação de um túnel. Essa estratégia possibilitou aos alunos autonomia na construção do próprio conhecimento, através de pesquisas. A estrutura da escola ajudou bastante para a construção dessa parte do projeto, fornecendo aos alunos acesso à sala de informática e biblioteca para realização de pesquisas, e disponibilizando a maioria dos materiais usados para as construções dos painéis.
Infelizmente, durante a construção e implementação do projeto, enfrentamos algumas adversidades. Uma das principais dificuldades foi a carga horária reduzida das aulas de História, restrita a apenas duas aulas semanais de 50 minutos cada, o que nos levou a solicitar aos colegas de outras disciplinas horários adicionais para viabilizar as atividades planejadas. Outro desafio foi desenvolver estratégias capazes de despertar maior interesse e engajamento dos alunos na construção do trabalho. Apesar desses obstáculos, a culminância do projeto ocorreu no dia 2 de outubro de 2023, quando os estudantes do 1º e do 2º ano do ensino médio puderam expor e apresentar suas pesquisas para toda a comunidade escolar. O conhecimento sobre o continente africano não se limitou ao campo da História, abrangendo também aspectos geográficos, artísticos, filosóficos e sociológicos, proporcionando aos alunos uma formação mais ampla e integrada.
O projeto "África na Escola: saberes e vivência" teve como intuito romper com a história contada "pelos vencedores", possibilitando ao aluno conhecer e valorizar a história e a cultura negra, permitindo conhecer e se orgulhar das riquezas e da diversidade africana, que compõem as raízes da cultura brasileira. No final do projeto, foram feitas perguntas aos alunos para saber o conhecimento sobre a história da África depois da experiência do projeto. Segue abaixo, na Tabela 2, relatos das questões feitas com os alunos e suas respectivas respostas:
Tabela 2. Respostas dos Alunos na Avaliação Final.
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Depois de estudarmos sobre o continente, o que você sabe sobre África? |
Qual a sua opinião sobre a importância de estudarmos África? |
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“Sei que a África, apesar de que foi explorada, não perdeu sua cultura e força” (Aluno 1, 2023). |
“Para entendermos grande parte da nossa história, não descendemos de escravos, e sim, de povos poderosos, reis, revolucionários, inventores” (Aluno 7, 2023). |
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“Agora sei que a África é o berço da humanidade e por isso deveria ser a sociedade mais desenvolvida, porém, por conta da escravidão, houve um atraso no desenvolvimento da sociedade atual” (Aluno 2, 2023). |
“Para adquirirmos conhecimento, também pelo fato de que boa parte do povo brasileiro é afro-descendente” (Aluno 8, 2023). |
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“Sei que foi na África que surgiram as primeiras civilizações, e onde se iniciou a vida humana, a escrita, a evolução de armas e ferramentas. É dona de diversas histórias e crenças variadas” (Aluno 3, 2023). |
“É importante aprendermos sobre a história e cultura africana para conhecermos de onde se originou a humanidade e as demais culturas” (Aluno 11, 2023).
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“Sei que a África é o berço da cultura e da humanidade, e sei mais sobre o rio Nilo, o Egito, o reino de Kush e suas formas de governo” (Aluno 4, 2023).
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“Entender sobre a história do continente é importante pois é o lugar com a história mais antiga do mundo, que foi explorado por vários países e por isso, tem uma história complexa. Sem falar nos reis e rainhas poderosos de cada século” (Aluno 12, 2023). |
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“Que existem culturas muito bonitas e que tenho vontade de conhecer um dia” (Aluno 5, 2023).
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“Para não nos limitarmos a pensar somente na pobreza africana, mas compreender a grandeza e a diversidade deste continente, tais como cultura, religião, costumes, etc” (Aluna 13, 2023). |
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“Sei que é um grande continente, fonte de diversas culturas e de povos milenares que viveram ali” (Aluno 6, 2023). |
“Estudar a África ajuda a entender nossas próprias origens e a história da humanidade” (Aluno 14, 2023). |
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“Agora entendo que o continente tem climas variados, florestas, montanhas e até regiões frias” (Aluno 7, 2023). |
Aprender sobre a África mostra que o continente tem riqueza cultural e histórica incrível” (Aluno 15, 2023). |
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“Hoje vejo que existem países africanos muito estáveis, com avanços na medicina e contribuições para a ciência” (Aluno 8, 2023). |
“Acho importante porque a África é um continente riquíssimo e muitas vezes esquecido” (Aluno 16, 2023). |
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“Hoje reconheço que a África é o berço da humanidade e influencia a cultura mundial em diversos aspectos, como música, arte e gastronomia” (Aluno 9, 2023). |
“É essencial para quebrar a ideia de que a África é só pobreza e fome.” (Aluno 5, 2023). |
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“Agora sei que a África tem civilizações antigas riquíssimas, como o Egito e Mali, que influenciaram o mundo” (Aluno 10, 2023). |
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Historicamente, os currículos escolares propagaram a hegemonia da história eurocêntrica nas escolas brasileiras em detrimento da valorização da história de outros continentes. Como exemplo, predominou a imagem da população africana como uma civilização inferior, selvagem e primata. O ensino da África só passou a ser trabalhado nas escolas após a obrigatoriedade imposta pela Lei nº 10.639/2003. Com isso, vemos que a disseminação mais precisa sobre o estudo do continente africano e seus povos no Brasil aconteceu por conta de uma lei que obrigasse as escolas a implantar o ensino da África, o que reflete o preconceito presente na nossa sociedade, introduzido pela "herança" colonizadora e perpetuado pelo racismo estrutural.
Percebe-se, de modo geral, que a educação brasileira culturalmente tende ao eurocentrismo. Quando abordada a História Antiga, por exemplo, muito se fala dos gregos e seus filósofos ou do grande Império Romano. Mas quando é abordado o continente africano, a este vê-se precário espaço de atuação nos livros didáticos. Ou ainda, quando se fala das Artes na literatura, pouco se vê sobre as literaturas ou artes africanas.
O ensino de história da África deve então "ser visto como uma possibilidade de romper com as estruturas eurocêntricas dos nossos currículos escolares, dando aos nossos alunos oportunidades de entender que outros continentes e povos, além do europeu, contribuíram para a construção da história" (De Souza & Santos, 2008, p. 17). Além disso, o ensino de história da África colabora para a conscientização da importância das políticas de ação afirmativas e para a redução das desigualdades e discriminação racial, uma vez que serve como forma de problematização dos valores civilizatórios considerados como "corretos", colocando em pauta a valorização da diversidade étnica (De Santana & Moraes, 2010).
Com a aprovação da Lei nº 10.639, em janeiro de 2003, significativos avanços davam sinais. No intuito de disseminar conhecimentos mais coesos sobre o mundo africano, apresenta-se como forma de contribuir para a superação dos preconceitos por meio de práticas pedagógicas. "A Lei 10.639/03 contribuiu para o amadurecimento da luta da população afrodescendente no Brasil, com as políticas de ação afirmativas, para a redução das desigualdades" (De Souza & Santos, 2008, p. 17). Todavia, apesar de estarmos diante de aparentes avanços, junto com o plano idealizador apresenta-se um desafio: a sua eficaz implementação. Não há como negar que depois da lei muito se tem feito. O projeto é um avanço na valorização da História africana e afro-brasileira no currículo, mas ainda assim, vemos que sua implementação se dá de forma lenta.
Da perspectiva de Lima (2016) elenca três fatores como motivadores para essa lenta implementação: o pouco material existente de estudo sobre a história e cultura afro no Brasil; o desconhecimento dos professores com o tema e o preconceito de algumas instituições. Esses fatores se relacionam com as dificuldades encontradas no desenvolvimento teórico do projeto pedagógico realizado. Infelizmente, a considerável quantidade de materiais no processo de desenvolvimento teórico ainda é restrita ao campo acadêmico e entre especialistas da área. Com relação ao envolvimento dos professores de outras áreas da unidade escolar, foi observado durante a realização do projeto pedagógico que ainda persiste a falta de conhecimentos acerca do continente africano, o que dificultou o diálogo entre as disciplinas.
Para entender a história da África é preciso levar em conta as complexidades e diversas formas de organizações que existem dentro do continente, despedindo-se da generalização e visão eurocêntrica de que o continente é lugar de extrema pobreza e composto por povos selvagens. É de extrema importância discutir os conhecimentos relacionados à vida na África, compreendendo o mundo social africano, dando assim oportunidade aos alunos de desconstruir concepções de inferioridade legadas às populações africanas. Cunha (2006) refere que o ponto fundamental para inserir a História Africana não reside apenas em seu conteúdo, mas sobretudo na necessidade de desconstruir e eliminar certos pilares da ideologia racista presente na sociedade brasileira.
Nessa perspectiva, acreditamos que esse processo de desconstrução deve alcançar os estudantes, por isso projetos pedagógicos como o exposto neste artigo são de fundamental importância. Com relação aos professores de História, precisamos estar munidos dos conhecimentos sobre a história da África e africanidades para não equivocarmos com visões estereotipadas e eurocêntricas, na busca de possibilitar aos alunos não apenas conhecer África, mas correlacionar o continente africano com a sua realidade.
Segundo Schmidt (1997), muitos brasileiros de hoje descendem de povos africanos. Por isso, conhecer a história da África nos faz conhecer nossa própria história. Assim, ao discutirmos acerca da identidade brasileira, necessariamente adentramos na História da cultura africana diaspórica. Desse modo, falar de identidade brasileira é falar de ancestralidade africana, já que nossa sociedade foi forjada pelo entrelaçamento de vários povos, tais quais: indígenas, europeus e africanos.
Apesar de todas as adversidades e desafios do projeto, tivemos um retorno satisfatório. Não suprimos todas as expectativas levantadas, contudo, colhemos relevantes aprendizagens. Afinal, alcançamos o principal objetivo: desconstruir a visão generalizada do continente africano como lugar rudimentar ou incivilizado, problematizando assim as complexidades e as múltiplas formas de organização social e política dos diversos povos e países africanos. Atravessou-se fronteiras, pois conseguimos levar as discussões sobre história da África para além das paredes das aulas de História, no qual foi possível articular um projeto que envolveu toda a unidade escolar, integrando tanto o corpo docente como discente.
Inicialmente, objetivava-se como público-alvo a comunidade interna do colégio; porém, houve uma repercussão maior do que o esperado, contando com a visitação da comunidade em geral. Como o projeto ficou exposto durante um período de tempo, houve a visitação de cidadãos que precisaram ir ao colégio por motivos diversos, em que aproveitaram a oportuna.
CONCLUSÃO
O projeto "África na Escola: historicidades, saberes e vivências" demonstrou a eficácia de abordagens pedagógicas que integram teoria e prática para desconstruir visões estereotipadas e eurocêntricas sobre o continente africano. A metodologia, baseada na prática supervisionada do PRP e no uso de fontes primárias, pesquisa oral e uma abordagem problematizadora, permitiu aos residentes promover um ensino crítico e contextualizado. Os resultados, evidenciados nas avaliações finais, apontam para uma significativa transformação na percepção dos alunos, que passaram a reconhecer a África como berço da humanidade, palco de civilizações complexas e detentora de uma rica diversidade cultural, rompendo com a associação prévia predominante com pobreza, atraso e selvageria. A culminância do projeto, com a exposição dos trabalhos dos alunos, não apenas consolidou o aprendizado, mas também engajou a comunidade escolar, extrapolando os limites da sala de aula de História.
Por fim, a experiência reitera a importância e a viabilidade da implementação da Lei nº 10.639/2003, ao mesmo tempo que evidencia os desafios persistentes, como a carga horária insuficiente e a necessidade de maior capacitação docente e integração interdisciplinar. Conclui-se que iniciativas como esta são fundamentais para a construção de uma consciência histórica crítica, que permita aos estudantes compreender as raízes africanas da sociedade brasileira e combater o racismo estrutural. O projeto reforça que o ensino da história africana é um poderoso instrumento de valorização da diversidade e de ressignificação identitária, contribuindo para uma educação antirracista e verdadeiramente inclusiva, onde os alunos possam se reconhecer como descendentes de povos com histórias de resistência, inovação e grandeza.
REFERÊNCIAS
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De Santana, J. V. J., & Moraes, J. O. (2010). Valores civilizatórios africano-brasileiro em uma escola no município de Itapetinga/BA: afirmação ou negação? Revista África e Africanidades, 3(10). https://africaeafricanidades.com.br/documentos/10082010_15.pdf
De Souza, D., & Santos, L. (2008). Ensino de História da África e Cultura Afro-brasileira: desafios e possibilidades. Revista Tempos e Espaços em Educação, 1, 15-20. https://periodicos.ufs.br/revtee/article/view/2190/1861
Fernandes Bittencourt, C. M. (2011). Ensino de História: fundamentos e métodos (6a ed.). Cortez.
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Conflitos de interesse:
Os autores declaram não ter conflitos de interesse.
Contribuição dos autores:
Elaine De Jesus Silva-Honório, Raiane Aragão-Silva: concepção e desenho do estudo, aquisição de dados, análise e interpretação, redação do manuscrito, revisão crítica do conteúdo, análise estatística e supervisão geral do estudo.